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quarta-feira, 28 de março de 2012
Uma tatuagem sobre a pele

Idade-limite para adoção de novidades pode ter fundo biológico, mas a cultura decidiu ignorá-la

Umas duas semanas atrás, o médico J. J. Camargo, em sua coluna de Zero Hora, provocou polêmica ao criticar a crescente adoção de tatuagens, especialmente por jovens. Camargo dizia temer por escolhas feitas  na adolescência, muito em função da pressão dos pares e dos modismos, e que poderiam vir a causar arrependimento mais tarde. Um arrependimento eterno, por sinal: ainda não existe técnica capaz de garantir remoção completa e perfeita de uma tatuagem.

tattoo-oldman-350Muita gente não gostou do texto e escreveu para o jornal, queixando-se de um suposto preconceito e conservadorismo do autor. De minha parte, alheio à polêmica, me chama a atenção o crescimento da adoção da tatuagem nos últimos anos, especialmente em pessoas já passadas há muito da juventude. Não digo idosos, claro, mas gente cuja faixa etária, pós 30 ou 40 anos, parecia garantir uma certa imunidade a esse tipo de modismo visual.

A surpresa decorre de ver contrariado um estudo realizado pelo neurocientista Robert Sapolsky, de Stanford, que indica que todos temos uma idade limite para adoção de novidades. Essa idade seria de 35 anos para estilos musicais ou artistas diferentes, 39 para comida e 23 para modismos em geral. Nesse último caso, a pesquisa foi realizada com usuários de piercings, uma intervenção disseminada mais recentemente e, sob certo aspecto, mais desconfortável que a tatuagem – o que explicaria, em tese, sua menor popularidade, ao menos no meu ponto de vista.  Mesmo assim, não deixa de ser intrigante que tanta gente de idade “mais avançada”, por assim dizer, esteja adotando as tatoos, antes restritas aos jovens.

Sapolsky diz que a tendência de se fechar para novidades, quando mais velho, já foi observada em animais. Quando em jejum, são os mais velhos que demoram mais a adotar um novo regime alimentar.

Parece, então, que questões culturais foram responsáveis pelo boom da tatuagem em nossa espécie; incentivadas por um contexto social que valoriza a juventude, muitos quarentões passaram não só a se vestir com mais ousadia, como também a marcar a pele eternamente.

Bonito ou feio, trata-se de uma discussão que fica para outro momento. Por ora, cabe o registro de que a Natureza nos conduz a certos comportamentos, perfeitamente comparáveis ao de muitos animais, mas é a cultura que nos faz humanos – e torna certos hábitos e preferências impossíveis de serem analisados apenas pelo prisma evolutivo, biológico.

No fundo, um grande elogio à interdisciplinaridade nos estudos comportamentais, como bem pregam os teóricos do Marketing.
 

Comentários 

 
0 #1 Celso Luciano Ramos 2012-03-29 16:15
não penso em fazer uma tatuagem (tenho 52 anos e posso mudar de idéia), mas não discrimino...convivo com pessas da minha idade que aderiram a tatuagem ao piercing, tudo depende de como você recebe as informações, como as interpreta, se o seu grau de informação e atualização lida com isso...espero que as pessoas não se sintam velhas, mas evelhescentes...

abração

Celso Luciano Ramos
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