| segunda-feira, 12 de dezembro de 2011 |
| Anos incríveis? |
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Quantas ilusões não guardamos a respeito de pessoas, empresas e lugares do passado? O passado é o “lugar” mais seguro que existe, e o mais idealizado. De tempos em tempos, vêem-se modismos nostálgicos, formados por culto a roupas, objetos e modos de agir de épocas nem sempre experimentadas pelos seus seguidores. Por isso mesmo, soam sempre como tempos mais puros, em todos os sentidos – menos comerciais, mais cordatos, mais fáceis de serem vividos, em suma. Como toda nostalgia, ela é parte verdadeira, parte mitificação; boa parte das vezes, o passado era mais puro apenas na aparência, devido à falta de transparência, informação ou a um pouco de hipocrisia – e não necessariamente a comportamentos diferentes dos atuais.(Um exemplo curioso vem da biografia de Roberto Marinho, escrita por Pedro Bial em 2003. Nele, Bial relata que Marinho via com bons olhos a liberação sexual feminina. Marinho afirmava que, lá pelos anos 1920 e 1930, os de sua mocidade, "as meninas iam lá em casa, faziam de tudo e casavam virgens”). No território do marketing, um exemplo vem da revista americana Fast Company de abril deste ano. Na matéria sobre o novo filme de Morgan Spulock (autor de “Super Size Me”, em que fica um mês comendo apenas fast food), sobre a onipresença das marcas no cotidiano das grandes cidades, há uma passagem que trata justamente de patrocínios de empresas a obras artísticas, especialmente no cinema e na TV. O merchandising em novelas e filmes pode parecer uma invasão comercial a espaços culturais típica do nosso tempo, mas Spurlock lembra que... “(...) nos anos de 1800, Júlio Verne vendeu naming rights para empresas de navios em ‘A volta ao mundo em 80 dias’ e, nos primeiros anos do cinema, Thomas Edison colocou anúncio de seus próprios produtos nos filmes”. Em quantas outras coisas o passado não era mais parecido com o presente do que imaginamos? Quantas outras ilusões ainda não guardamos a respeito de pessoas, empresas e lugares? Não importa. Mitos não existem para serem desafiados, e sim cultuados. Por isso, serve ao próprio mundo dos negócios que o passado pareça mais seguro, confortável, acolhedor; sem essa ilusão, não há como lançar modismos nostálgicos de tempos em tempos, ou recriá-lo sob a forma de produtos culturais. Mas vale pensar a respeito. E fica uma provocação de Spurlock: “que pureza estamos buscando?”. |



Como toda nostalgia, ela é parte verdadeira, parte mitificação; boa parte das vezes, o passado era mais puro apenas na aparência, devido à falta de transparência, informação ou a um pouco de hipocrisia – e não necessariamente a comportamentos diferentes dos atuais.

