nasbancas_jan2012

toposrconsumidor

segunda-feira, 21 de novembro de 2011
Um cadáver que nos provoca

A nova série de anúncios da Benetton é quase um atestado de óbito da marca

Quem tem perto de 30 anos lembra das famosas campanhas da Benetton das décadas de 80 e 90, com imagens de um padre e uma freira se beijando, de uma mulher negra amamentando uma criança branca, da farda manchada de sangue de um soldado da Guerra do Golfo ou a comovente cena de um jovem aidético no leito de morte, cercado pela família.

benetton-publi-350A despeito do que se pudesse achar das peças, elas eram saudavelmente provocativas; as campanhas tinham um frescor incomum e questionavam o discurso idealizado da propaganda. Os temas tratados eram pertinentes àqueles tempos – caso de Aids e guerra –, ou simplesmente inéditos na publicidade – como racismo, sexo e religião. A marca demonstrava capacidade de surpreender a cada anúncio, mesmo quando o truque da polêmica parecia esgotado.

A Benetton voltou, duas semanas atrás, a veicular anúncios “polêmicos”, depois de muito tempo longe da mídia. Montagens mostram líderes mundiais como Obama, Chavez, Angela Merkel e o Papa Bento XVI se beijando, sob a frase “Unhate” (“não odeie”, ou “deixe de odiar”). A campanha repercutiu e muito provavelmente deve ter contribuído para aumentar o recall da marca, mas não é nem sombra daquelas que fizeram a fama da confecção italiana.

Primeiro, porque está fora do seu tempo – usar a publicidade para promover causas deixou de ser novidade, principalmente depois que Dove, Nike e Sprite passaram a usar a publicidade para... desmascarar a própria publicidade. O truque da “publicidade que não é publicidade” envelheceu e perdeu a graça.

Segundo, porque a campanha não tem imaginação. Em uma época em que uma charge quase custou a vida a um cartunista dinamarquês e toda e qualquer autoridade está sujeita a pesado escárnio na internet, colocar presidentes se beijando soa infantil.

Terceiro e mais importante: porque trata de um tema que não tem a MENOR importância para as pessoas hoje. O mundo não padece de excesso de ódio, pelo contrário. Talvez o problema mais generalizado no planeta, hoje, seja justamente o ódio represado – ódio contra banqueiros, nos EUA, contra primeiros ministros, na Europa, e contra políticos, no Brasil. A Benetton perdeu a chance de capturar esse sentimento e representá-lo em seus anúncios, optando por um assunto que, paradoxalmente, beira o conservadorismo.

No fundo, a campanha é o retrato da decadência da marca Benetton nas últimas duas décadas. Antes, a grife italiana caracterizava-se por fazer das campanhas audaciosas o disfarce perfeito para seu estilismo sem imaginação. Hoje, não consegue esconder seu sem-gracismo em ambas.

Oliviero Toscani, fotógrafo responsável pelas campanhas dos anos 80 e 90, dizia que “a publicidade é um cadáver que nos sorri” - uma mentira maquiada para parecer simpática, em outras palavras. A nova série de anúncios da Benetton nasce com cheiro de mofo e mais parece o atestado de óbito de uma marca decadente do que a promessa de seu renascimento.
 

Comentários 

 
#9 Esther Gonçalves 2011-11-29 23:26
Em nota oficial, o grupo Benetton fala em tolerância e “amor global”. As fotografias são “imagens simbólicas de reconciliação – com uma pitada de esperança irônica e provocação construtiva – para estimular a reflexão sobre ideias, política, fé”. O grupo Benetton acredita que há maneiras pacíficas de lidar com divergências, como o “diálogo e a meditação”.

http://www.cartacapital.com.br/internacional/controversa-campanha-da-benetton-alveja-tel-aviv/
Quote
 
 
#8 Helena Carvalho 2011-11-24 16:53
Análise bem pertinente - partilho em pleno.
Campanha completamente descontextualiz ada da conjectura actual - naõ beneficia a marca em mada.
Quote
 
 
#7 Marcello Seffrin 2011-11-23 12:54
Fico surpreso com essa forma de comunicação. Crio "jingles" comerciais há mais de 20 anos, alguns deles premiados, e questiono, como eu faria novos trabalhos usando esse "tipo" de comunicação??
Quote
 
 
#6 Esther 2011-11-23 11:14
Olá André,
Geralmente aprecio as suas críticas.

Me desculpe, mas alguns princípios sim, cheiram a "mofo".

A Fábrica, agência de Oliviero foi a responsável pela campanha.

Historicamente temos odiado muito.
Ao meu ver essa campanha traz sim um eterno frescor dos instintos vividos em diversas temporalidades e que ainda não foram domados, mesmo considerando que houve alguma evolução humana.

A Banetton é uma marca responsável com a sua confecção, mão de obra e apoio a comunidades produtoras.

É grande o risco que se corre em assumir mão de obra não escrava, um passo para mudanças de aderência no mercado de moda uma vez que a Zara e H&M dominaram o mercado com as roupas made in china, e, finalmente assumir uma publicidade mais elaborada, que vende e desperta alguns valores suavemente esquecidos, hoje, cheirando a mofo.
Quote
 
 
#5 Nelso 2011-11-23 10:25
Hmm André, apesar de suas bem colocadas palavras a camapanha foi um sucesso.
Quote
 
 
#4 Eduardo 2011-11-23 00:47
A publicidade é (ou, pelo menos, tem sido há muito tempo) um cadáver que nos sorri um sorriso de escárnio cada vez que pensamos trocar, na boca do caixa, dinheiro por felicidade.
Quote
 
 
#3 Rogerio 2011-11-23 00:39
André, velho, mofado, fora do tempo, do contexto, mas atingiu um objetivo, o de estar na boca do povo, da mídia em geral.

Concordo com o mau gosto, mas pelo mal repercutiu.
Quote
 
 
#2 Gilberto Strapazon 2011-11-23 00:05
Excelente André. Quando falo que empresas devem ter janelas de verdade não é só para melhorar a qualidade do ambiente nem servir apenas como decoração nem pelos aspectos relacionados a energia nem os aspectos shamânicos. São para as pessoas olharem para fora. Campanhas como esta, e me apoiando no teu comentário, mostram que eles não sabem o que acontece lá fora. Enterraram a marca no passado fazendo terceirizações que lotaram o mercado de porcarias mal feitas dimesionadas apenas pelo fator "custo baixo de qualquer jeito". Olhar para fora tem um custo: o do auto-conhecimento.
Quote
 
 
#1 Laura 2011-11-22 15:59
André, parabéns pelo post. Esta campanha é uma ideia requentada e nem de longe causa o impacto das anteriores.
Quote
 

Comentar




Banner
Banner
Banner

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

Banner

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

Banner
Banner