Ou, por outra: como mulheres e homens foram parar na beira do fogão
“Amélia não tinha a menor vaidade/Amélia é que era mulher de verdade”
A letra antológica de Mário Lago não fala, mas dá a entender que Amélia ia para o tanque e para o fogão sem reclamar – e até com algum gosto, aliás. Composta na década de 40, a canção virou ode às donas de casa esmeradas e unicamente dedicadas ao marido e aos filhos.
A letra era um reflexo da realidade da época? Nas classes média e alta, provavelmente não. Até aquela década, eram as empregadas quem se encarregavam das tarefas domésticas, entre as quais a de cozinhar. Foi só na década seguinte que as “Amélias” de maior poder aquisitivo se tornaram frequentadoras habituais da cozinha. A razão da mudança foi a popularização dos eletrodomésticos e dos produtos industrializados, que facilitaram a preparação de refeições e serviram de estímulo às mulheres da época a se aventurarem na cozinha, território antes dominado pelas criadas. Quem defende essa tese, literalmente, é Débora Santos de Oliveira, que obteve seu título de mestre em História pela USP justamente ao estudar a evolução do conhecimento culinário no Brasil no século passado (pesquisa disponível no banco de teses da universidade: www.teses.usp.br). Logo que li referências a respeito da pesquisa de Débora, lembrei-me de uma coluna de Eloi Zanetti, em AMANHÃ, na qual diz que a recente onda gourmet, com homens se aventurando na cozinha para preparar pratos refinados, nasceu de uma mudança na configuração dos apartamentos. O fim do dormitório de empregada permitiu uma ampliação da cozinha, levando os fabricantes a desenvolver móveis mais bonitos e funcionais para essa parte dos apartamentos. Dos novos móveis para os novos utensílios foi um passo – e destes para a constituição de um novo hábito nas famílias de classe média, também. O que Débora e Zanetti nos mostram é que nem sempre os produtos surgem para atender necessidades dos consumidores; muitas vezes eles ajudam até a criá-las. Não a criar “necessidades” no sentido estrito da palavra, claro, mas a estimular o desenvolvimento de novos hábitos. Marketing é, no fundo, uma via de mão dupla: pode tanto atender a gostos e hábitos dos consumidores quanto ajudar a moldá-los.
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