O pai da psicanálise era um voraz comprador de esculturas clássicas. Alguma diferença em relação às "atletas de shopping"?

Se existe uma pecha que ninguém gosta de receber é a de consumista. Como já escreveu a professora Lívia Barbosa, da ESPM-SP, tendemos a ver o consumo como algo frívolo e alienante, quase uma demonstração de fraqueza pessoal diante dos apelos fáceis das vitrines.
No entanto, essa não é uma visão uniforme. Costumamos absolver o consumo de bens culturais, colocando-o em uma esfera separada da do consumo de produtos "convencionais", digamos assim. Uma biblioteca repleta é motivo de orgulho para seu proprietário. Um guarda-roupa abarrotado, não. A separação tem lá algum sentido. Livros, por exemplo, são diferentes uns dos outros, e é perfeitamente possível desfrutar dos prazeres e benefícios de cada um simultaneamente, sem risco de sobreposição. Calças e camisas, não; enquanto usamos uma peça, não podemos vestir outra, de modo que, em tese, existiria um número ótimo de peças a se encaixar em nossas necessidades. O que nem sempre nos damos conta é que tanto livros quanto camisas podem estar sujeitos a um mesmo conjunto de motivações de compra, muito pouco utilitárias e bastante pessoais. Pode-se comprar uma obra de arte por capricho, prazer, vaidade, tanto quanto uma peça de roupa nova. A diferença é que, socialmente, a obra de arte mais enaltece seu proprietário do que a roupa. O impulso de um parece-nos legítimo, enquanto o de outro, digno de condenação. Recentemente, veio à luz uma faceta pouco conhecida da personalidade de Sigmund Freud, criador da psicanálise: a de colecionador de esculturas antigas. Ao longo da vida, Freud amealhou uma coleção de 2,5 mil obras de arte gregas, romanas e egípcias, compradas em lojas de antigüidades e, quem diria, até no mercado negro. Escreve Janine Burke, autora de "Deuses de Freud - a coleção de arte do pai da psicanálise" (editora Record): "A famosa imagem de Freud como um homem austero, distante e hostil é contestada por essa coleção, que revela uma personalidade bem diferente: um esbanjador impulsivo e hedonista." "Esbanjador impulsivo"? Ora, por mais culto que fosse Freud, e por mais dotada de méritos culturais fosse sua coleção, esbanjamento e impulsividade são características próprias de todos os consumistas, sejam eles fissurados em obras de arte, apetrechos tecnológicos ou moda. O cerne do comportamento é o mesmo; a energia que move o adorador de antiguidades e algumas "atletas de shopping" é a mesma, tanto quanto o prazer envolvido na aquisição. O que muda é o objeto no qual cada um coloca seu "fetiche" - para usar uma expressão cara à psicanálise (e ao marxismo, claro).  Ok, pode-se dizer que a coleção de Freud contribuía para seu engrandecimento intelectual, diferentemente das aquisições "vulgares". Mas esse é apenas um subproduto do consumismo. Freud comprava por simples prazer, tanto quanto muitos de nós quando em frente a uma vitrine. Não pensava em tornar-se mais inteligente ou inspirar-se em esculturas para desenvolver teorias. Tanto que o próprio Freud confessou a seu colega Carl Gustav Jung: "eu preciso ter sempre um objeto para amar". E quem não precisa?
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