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terça-feira, 29 de março de 2011
Há quanto tempo você não anda de ônibus?

Antes de criticar os gastos da classe popular, convém colocar-se no lugar dela



A tal ascensão das classes populares ao mundo do consumo, desde o Plano Real e, mais acentuadamente, desde o 2º governo Lula, é um desafio e tanto para os gestores de marketing. O motivo: quem comanda o marketing das empresas é, costumeiramente, um membro da classe média tradicional - aquela que manda seus filhos para escolas particulares e universidades, o que a permite conservar ou melhorar seu status social com o passar das gerações. Para o típico representante desse grupo, é difícil imaginar o que seja uma vida com outros valores, ambições e, claro,  outra disponibilidade monetária - significativamente menor. Criar produtos e campanhas para a baixa renda exige um "set up mental" que não é simples.

carros-cifra350Mas há um outro desafio nesse processo, e ele não se restringe a quem trabalha nas empresas. Diz respeito a todos nós que, dos estratos médios ou altos, acompanham essa movimentação escada acima dos consumidores CDE. É o desafio de não patrulhar as escolhas de consumo desses recém-chegados, dando um viés moralista ao comportamento daqueles que, após muito tempo apenas assistindo, agora têm chance de participar da festa.

Digo isso porque é comum ouvir, aqui e ali, reprimendas aos consumidores que parcelam em quantidades infinitas carros e eletrodomésticos, ou que fazem pequenos sacrifícios para comprar um tênis de marca. Esquecem-se que aquilo que é banal para um consumidor AB pode ser uma novidade, ou um luxo, para o CDE, justificando uma certa impulsividade na busca por determinados bens.

Temos que recordar, também, que famílias de classe média parcelam viagens ao exterior em prestações a perder de vista, e fazem pequenos sacrifícios para trocar de carro ou mandar os filhos à Disneylândia quando completam 15 anos. Cada um com sua ambição, estamos todos sempre tentando obter o máximo de satisfação com o orçamento de que dispomos.

Sobre isso, uma interessante lição foi dada por uma consumidora 'emergente' a um pesquisador especializado nos segmentos CDE (Estadão, 05/03/11). Renato Meirelles, diretor do Data Popular, instituto voltado a estudos sobre a chamada nova classe média, entrevistava uma mulher que havia comprado um carro em 48 prestações. Aproveitou para perguntar se ela sabia o quanto havia pago no total pelo veículo. A resposta: "Sei fazer contas, paguei duas vezes o valor do carro".

"Mas não valeria a pena economizar para pagar à vista?", perguntou Meirelles. compra-carro-250

A tréplica foi exemplar: "faz tempo que o senhor não anda de ônibus. Não quero esperar, quero o carro agora".

E para quantos de nós essa advertência não serviria?
 

Comentários 

 
#3 2011-05-01 22:26
Não podemos esquecer que carro é para uso de necessidade básica (saúde) e lazer. Para trabalhar devemos "lutar" por transporte público de melhor qualidade e comprometido com uma boa prestação de serviço para quem realmente precisa, no caso o TRABALHADOR.
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#2 2011-03-30 16:59
A insatisfação com um determinado serviço pode ficar clara quando a pessoa tem condições de usufruir de algo melhor. Esta é uma das coisas que não é percebida. Elitistas tendem a achar um absurdo quando alguém passa a se alimentar melhor, a consumir bebidas um pouco melhor, ou vestir-se com um pouco mais de qualidade. É incrível debochar de alguém que lutou para conquistar algo demonstrando preconceito e falta de visão de que a sociedade é constituída de vários degraus. Quem sempre teve um café da manhã farto e variado, acha um absurdo que uma imensa parcela da população, tenha apenas um café e pão com alguma coisa dentro. Daí surgirem projetos mirabolantes e bonitinhos, mas fora da realidade, por pura falta de vivência. Se quer ser bom no seu ofício, aprenda a usar todas suas ferramentas. Se quer ser um Mestre na sua área, conhecer as pessoas é fundamental.
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#1 2011-03-30 16:39
Diante de uma resposta desta, fica claro o tamanho da miopia das empresas privadas de transporte público, que tem baixíssimo índice de popularidade entre os usuários, péssima campanha de marketing e propaganda, quando tem, jogam contra si mesma, pois os consumidores só pensam em substituir o seu serviço e quanto mais carros nas ruas menos gente usando ônibus!!
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