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quarta-feira, 05 de Janeiro de 2011
O sucesso do fracasso

Derrotas são essenciais para inovar e empreender – e não há porque envergonhar-se delas



Na Revista AMANHÃ de novembro, há uma referência a um curioso "Congresso do Fracasso", realizado em outubro último, na Califórnia. O propósito do evento foi enaltecer o valor da tentativa – ainda que malfadada – no processo de inovação. Dado que o encontro ocorreu no Vale do Silício, berço das maiores inovações tecnológicas da nossa era, há de se concordar que os organizadores e participantes tinham conhecimento de causa suficiente para se permitir celebrar algo que, em ambientes menos arejados intelectualmente, seria motivo de vergonha.

Em qualquer outro lugar dos EUA, aliás, provavelmente esse evento não se realizaria. A separação entre vencedores e perdedores é um traço típico da cultura americana nascido nos idos de 1800. Antes disso, fracassar era algo que simplesmente acontecia, lembra a colunista Julia Baird, da Newsweek (20/09/10); a partir daquele século uma série de fatores fez mudar a feição da derrota, a ponto de torná-la sinônimo de deficiências pessoais. Daí para se tornar uma pecha sobre os indivíduos, foi um passo.

gurgel450xQuando li a respeito disso, lembrei imediatamente de João do Amaral Gurgel, engenheiro paulista criador de uma fábrica de automóveis com o seu sobrenome nos anos 70 (e fechada em 1994). Gurgel foi o responsável por uma iniciativa que, se tomada hoje, seria ousada; à época, era simplesmente uma loucura: criar uma montadora 100% brasileira. Gurgel não só encampou essa "maluquice" como a fez perdurar por duas décadas, vendendo 40 mil veículos no período. Criou carros compactos e funcionais em uma época em que nem se falava em praticidade; fez o protótipo do primeiro carro elétrico quando ninguém sabia o que era sustentabilidade; e desenvolveu modelos especialmente talhados para rodar nas más condições das estradas brasileiras. Um gênio empreendedor, em suma.

Um gênio que fracassou, no entanto – ao menos no sentido estrito da palavra. A Gurgel não resistiu aos novos tempos da economia brasileira e teve de fechar as portas. Mas nem é preciso condescendência para afirmar que João Gurgel foi, sim, um vencedor. A despeito do seu negócio não ter perdurado, a aventura de colocar um carro 100% nacional no mercado e de "peitar" as quatro grandes montadoras por anos tem um quê de heróico – e guarda muito mais mérito do que muitas trajetórias ditas bem sucedidas que vemos por aí. Por que não render homenagens a esse homem, então?

Ousando um pouco – mas não tanto quanto Gurgel ou o pessoal do Vale do Silício –, desejo um 2011 repleto de fracassos construtivos a todos.

Serviço: quem quiser saber mais sobre João do Amaral Gurgel pode ler "Gurgel – um brasileiro de fibra", de Lélis Caldeira (editora Alaúde).
 

Comentários 

 
#6 2011-08-29 18:32
O mais triste é que atualmente sociedades formadas por engenheiros que se dizem patriotas nem sequer mencionam o nome Gurgel....
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#5 2011-01-06 18:19
Realmente, ele é um mito, não tanto pelo que vendeu, que foi muito pouco, mas devemos a ele nossos grandes motores 1:0 que socializaram o automóvel no pais- este sim, o seu maior legado-. Torci por ele, como nacionalista que fui e mesmo não sendo tanto atualmente, me dói ver carros chineses; indianos; coreanos (até Lada já compramos) e nenhum brasileiro...., que pena!.
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#4 2011-01-05 21:59
Sensacional a lembrança!Se fosse em qualquer outro país Gurgel seria laureado, aqui, sucumbiu ao complô feito pelas montadoras que impediram os fabricantes de autopeças de vender à sua marca. Um Viva aos gênios "falidos"!
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#3 2011-01-05 13:58
Em tempo, acho que Gurgel não fracassou. Ele apenas foi vencido.
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#2 2011-01-05 13:55
Muito bom seus comentários.
Aprender com os erros e fracassos é uma das alavancas que impulsionam os verdadeiros vitoriosos. Quem nunca erra é um fracassado por princípio. Quem não erra é porque nunca tentou fazer algo diferente, ir além do lugar comum.
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#1 2011-01-05 13:43
Ótimo artigo!
É muito animador ler sobre a trajetória do Gurgel.
O livro indicado é muito bom.
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