Crise chinesa deve intimidar Fed a elevar juros em 2015

Barclays aposta que a alta não virá antes de março do ano que vem

Por Infomoney

Barclays, banco britânico

O mercado tomou um novo "susto" na segunda-feira (24) e a explicação, novamente, foi a China. O governo chinês, após uma desvalorização surpresa do yuan, não animou os mercados com novas medidas efetivas para conter o mercado de ações, o que indica que a transição da economia do gigante asiático será ainda mais dura do que os mercados poderiam esperar. Com isso, Xangai despencou 8,4% nesta segunda-feira. No entanto, nesta terça-feira (25), o governo anunciou cortes de juros e de compulsórios. A taxa de empréstimo caiu 25 pontos-base, para 4,6%, enquanto a taxa de depósitos de até um ano passou de 2% para 1,75%. Os compulsórios foram cortados em 50 pontos-base para 18% para os grandes bancos. Desse modo, o Ibovespa subia pela na manhã, em linha com os mercados internacionais e em recuperação, após tombo de 3% ontem. O índice subia 1,3% perto do meio-dia para 44.912 pontos.

Ao mesmo tempo em que a China enfrenta tamanha turbulência, o Federal Reserve se prepara para elevar a taxa de juros pela primeira vez em quase uma década. E se a interpretação para a ata da última reunião do política monetária já era dúbia sobre o que deve acontecer, agora o cenário fica ainda mais nebuloso. 

Conforme destacou o Citigroup na semana passada, o Fed ressaltou na ata a sua preocupação com a China e a Grécia. “Porém, os desenvolvimentos externos não deveriam influenciar a sua avaliação inicial sobre o calendário ou o ritmo da normalização da taxa", relata o banco. No entanto, também  alguns analistas apostavam que a China seria um fator que levaria o Fed a adiar a taxa de juros para dezembro. Com os novos temores chineses se intensificando, há quem veja uma mudança de rota ainda maior. É o caso do Barclays, que agora vê como improvável uma alta de juros antes de março em meio à volatilidade financeira e à incerteza que ronda o crescimento nos mercados emergentes. 

O movimento de queda do preço do petróleo, que tem baixa de 17% em agosto, provavelmente pesará sobre a decisão do Fomc. “Alguns integrantes expressaram preocupação com a inflação nos Estados Unidos antes da mais recente queda dos preços do petróleo. Além disso, a força do dólar atenua o qual rápido o Fed teve firmar o núcleo de sua inflação", afirmou o banco britânico em nota. A perspectiva é de uma grande mudança a partir da expectativa anterior de um aumento da taxa em setembro. "Embora continuemos vendo a atividade econômica nos Estados Unidos como sólida e justificando modestas altas das taxas, acreditamos que é improvável que o Federal Reserve inicie um ciclo de elevações neste ambiente, por medo de que tal movimento possa desestabilizar ainda mais os mercados", afirmam os analistas do banco. Porém, se a "volatilidade dos mercados se provar transitória", o Fomc poderia aumentar as taxas em dezembro.

Em uma pesquisa feita pela Reuters, metade dos traders acredita que o Fed elevará as taxas em dezembro, ante 72% do último levantamento. Só 37% dão como certo que os juros subirão em setembro, enquanto 17% esperam que a alta se dê em 2016. A pesquisa, divulgada ontem, foi feita entre 27 de julho e 4 de agosto, cerca de duas semanas antes da acentuada liquidação das ações.

Conforme destaca o colunista do Financial Times, David Riley, chefe de estratégia de crédito da BlueBay Asset Management, o cenário mundial é incerto, com a desaceleração das economias emergentes e um ambiente ainda complicado para a retomada do crescimento na Europa e no Japão. 

O impulso desinflacionário da China através de preços mais baixos das commodities e um dólar mais fraco tornam mais difícil para o Fed ser "razoavelmente confiante" de que a inflação volte à meta de 2% em um futuro visível. Mas também é evidente que os Estados Unidos estão se aproximando do pleno emprego com a maturação do ciclo de crédito e de negócios, garantindo um aperto das condições financeiras e voltando a elevar as taxas de juros que foram para zero após o crash de 2008. 

Riley destaca ainda que o Fed poderá até subir os juros em setembro e, simultaneamente, sinalizar um caminho de alta mais gradual. Mas se os ventos contrários da economia global e as tendências deflacionárias se intensificarem, a autoridade monetária pode ser forçada a inverter a sua política e ser culpada por uma desaceleração econômica em plena eleição presidencial. 

Os ciclos anteriores de alta da taxa de Fed tem sido quase sempre acompanhados de aperto da política por outros grandes bancos centrais. "Dessa vez vai ser muito diferente. Uma maior flexibilização monetária pelo Banco Central Europeu e Banco do Japão não pode ser descartada e é mais provável na China. As políticas monetárias divergentes apoiarão uma maior volatilidade de ativos cruzados e desafiarão os mercados financeiros frágeis e avaliações de ativos esticadas", ressalta o colunista. 

Riley complementa afirmando que o potencial de um erro de política por parte do Fed, bem como das autoridades chinesas, está aumentando. "O crescimento global é mais precário hoje do que em qualquer momento desde a Grande Recessão. A economia dos Estados Unidos está pronta para maiores taxas de juros, mas a economia global não. Contra tal pano de fundo, a preservação de capital e o valor fundamental devem ser as palavras de ordem para os investidores que procuram navegar em mercados financeiros turbulentos", argumenta. 


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