Uma reflexão sobre os carrinhos de bebê

Fernando Dourado Filho aborda a economia em torno desse produto

Por Fernando Dourado Filho*

Carrinho de bebê

A compra do carrinho de bebê nos Estados Unidos é o ponto alto do anúncio da maternidade para milhões de brasileiras. Certo é que a compra do enxoval, constatada a gravidez, não prescinde dessa fase em muitos lares de classe média de nosso País. Os novos pais, na verdade, adoram fazer esse programa porque é um rito antecipatório do aumento da família e, maldosamente falando, lhes permite reatar com a resiliente memória consumista em sua melhor arena. Pois também comprarão uns mimos para si, salgando mais a conta. Mas não queimemos etapas.

Pois bem, ontem conheci um casal potiguar que veio fazer compras num outlet perto de Chicago. Exausta, a futura mãe de Marina mostrou os achados, acondicionados em três malas enormes de trinta quilos cada. Sapatinhos revestidos de lã de ovelha, pequenos cardigans de vários tamanhos e nas mais variadas cores. Enquanto fazia as contas de quanto essa nova brasileirinha já não vinha custando ao país em divisas, veio a pergunta que não quer calar: como é possível que não consigamos fabricar um pijama de algodão de 50 gramas a preço mundialmente competitivo?

Pois o que aqui custa R$ 20, no Brasil custa R$ 150, diz o casal num tom assustado. Além do mais, tem sua excelência, o carrinho. Como posso eu e toda uma geração ter sobrevivido naquelas carroças de antanho? Dizem que aqui custa US$ 200 e que vem com GPS e tudo. Na Pátria-Mãe gentil, vale 12 vezes esse valor, sem a geringonça de navegação. Ora, por que será que alguém não fez uma frota desses veículos para aluguel por períodos de um ano? Porque o brasileiro é sentimental e não quer vestígios de xixi alheio no bebê-conforto de seu herdeiro. Chistes à parte,  tem gente que faz serviço de concierge de compras e cobra U$ 500 por dia de cada cliente. Fato é que, com todos os custos somados – hospedagem, entretenimento, passagens, dólar caro –, é um absurdo que saia mais barato sair do Sertão do Moxotó para vir fazer enxoval de bebê aqui na fronteira canadense. Se eu fosse o ministro da Fazenda – do que será que ele tanto ri, aliás? –, eu encomendaria um estudo detalhado sobre o estranho caso do carrinho de bebê e das cadeias produtivas que gravitam em torno dele. E colocaria como meta reter as mães no Brasil, via desoneração e renúncia fiscal de uma ponta a outra. Seria um bom case e ainda pouparia preciosas divisas por conta de brasileirinhos que, sem opção, nascerão endividados. E, ironicamente, já contribuindo para aumentar um mal crônico.

*Fernando Dourado Filho é colunista da revista AMANHÃ. 


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