Qualidade que resiste ao tempo

Conheça a Oderich, case do livro “100 Marcas do Rio Grande”

Qualidade que resiste ao tempo

Estender a vida é, certamente, um dos sonhos mais antigos da humanidade. Mas a natureza, provedora do mundo, desenha em círculos os seus limites. Ainda assim, o gênio do homem emprega uma luta infindável para desviá-los, para estancá-los, e, assim, controlar a lógica da temporalidade. Resistir, não acabar. Noventa, cem, 106 anos. São poucos os seres, são raras as instituições que perduram tanto. Fundada para prolongar a vida dos alimentos, em fiel associação à natureza, a Conservas Oderich representa, no Rio Grande do Sul, um desses casos notáveis. A longa viagem da Oderich começa no dia primeiro de junho de 1879. Foi nesta data, há mais de um século, que o alemão Adolph Oderich – então com 22 anos de idade – desembarcou em Porto Alegre. Caixeiro-viajante, o jovem Adolph trepidou no lombo de uma mula pelos recônditos gaúchos até fixar-se em São Sebastião do Caí. Na cidade – que há menos de dez anos havia sido emancipada de São Leopoldo –, o jovem imigrante casou-se e teve cinco filhos: Max, Ernesto, Carlos Henrique, Irene e Irma. Além de constituir família, ele também montou um armazém. O negócio deu certo e, em seguida, deu origem a um centro de refinamento de banha.

De difícil perecimento, a banha era, naquela época, um dos produtos relevantes na economia. A qualidade do alimento, no entanto, costumava variar bastante, de acordo com o fornecedor. O padrão homogêneo e superior da banha industrializada por Adolph Oderich – vendida sob a marca Sol – ganhou rápida notoriedade nos municípios vizinhos. A empresa expandia rapidamente, mas o empreendedor seguia lutando contra o tempo. Isso porque, ao contrário da gordura, a carne suína não apresentava boa resistência à deterioração: cerca de 70% do produto era desprezado. Incomodado com o desperdício, Adolph enviou o filho Carlos Henrique para a Alemanha. A missão, estabelecida em 1903, estava clara: sua incumbência era pesquisar uma solução em conservação de alimentos. Começava ali uma verdadeira revolução na história da indústria brasileira de alimentos.

Pioneira no Brasil

Carlos Henrique retornou da Europa três anos depois, já dominando a técnica de conservar alimentos em embalagens metálicas. Em agosto de 1908, o jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, noticiava a viagem de uma comitiva até São Sebastião do Caí. Formado por jornalistas e convidados com interesse no método, o grupo presenciou a inauguração das modernas instalações da fábrica de conservas construída pela Carlos H. Oderich & Cia.

Fundada por Adolph, a organização foi a primeira do país – e a terceira no mundo – a envasar gêneros enlatados. Pioneira, a Oderich logrou um crescimento exponencial ao longo das décadas seguintes, chegando a produzir 1 milhão de quilos de derivados suínos por ano. O portfólio incluía salsichas, linguiças, bacon, presuntos, queijo de porco, caldos e sopas. Angariando novos mercados no país e no exterior, a empresa ampliou sua estrutura, abrindo filiais em Lajeado, no Vale do Taquari, e Nova Petrópolis, na Serra gaúcha. Em 1936, a Oderich se uniu a um pool de empresas do setor, dando origem à Frigoríficos Nacionais Sul-Brasileiros S/A. O empreendimento, instalado em Canoas, foi responsável por um grande salto da companhia já em seus primeiros anos.

Mas o êxito da Frigoríficos Nacionais seria abalado durante a Segunda Guerra Mundial. Os países envolvidos no conflito buscaram as regiões pecuaristas da América do Sul para instalar polos de produção de carnes enlatadas – e remetê-las aos soldados no front. Com a invasão das multinacionais, o mercado tornou-se rarefeito. Abatida por essa inesperada crise, a Oderich precisou desfazer-se das filiais e desativar a fábrica de conservas. O tempo e suas agruras pareciam intransponíveis.

Sem descendentes, Carlos Henrique preparou o afilhado, Carlos Henrique Oderich Sobrinho, filho do irmão Ernesto, para perpetuar o legado da empresa. Nascido em 1922, Carlos Henrique Sobrinho protagonizaria uma ruptura fundamental em 1956, quando a Oderich abandonou a Frigoríficos Nacionais e transformou-se na Conservas Oderich – sua denominação atual –, reativando a fábrica seminal de São Sebastião do Caí. 

Ainda assim, a forte concorrência no setor de conservas perduraria durante as décadas de 1960 e 1970. A luta para manter-se ativa no mercado exigiu da Oderich grandes doses de ousadia e perseverança, além de um gradual reposicionamento de sua marca – levado a cabo a partir do final dos anos 1970. À frente do processo, a quarta geração da família, formada por Marcos Oderich e seus irmãos, Cláudio e Lúcia – todos filhos de Carlos Henrique Sobrinho. Líderes em diferentes áreas da empresa, foram eles os responsáveis por conduzir a Oderich a um novo ciclo de expansão – calcado na manutenção dos valores prezados pela marca há mais um século, como a ética, a qualidade e o espírito empreendedor.

A mudança de diretriz incluiu o investimento em tecnologia e a entrada de novas mercadorias no sortimento de produtos – como mostarda, catchup e uma maior diversificação na oferta de legumes enlatados. A estratégia adotada para alcançar competitividade foi a venda direta ao varejo, em lotes menores, com preços mais atraentes do que os praticados pelas indústrias multinacionais de alimentos instaladas no país. 

Ao completar 90 anos, em 1998, a Oderich lançou sua maionese própria. O produto conferiu à marca um importante respaldo de imagem, incrementando as vendas substancialmente. Nos anos 2000, a Oderich enfrentou novas alterações de paradigma no segmento. Com a chegada das salsichas de frango – refrigeradas e a granel –, a procura aos tradicionais enlatados de carne sofreu um baque. A alternativa foi buscar o mercado internacional. Dentro desta estratégia, a Oderich passou a figurar em feiras do setor nos mais diversos países. Essa aproximação, aliada a um estudo minucioso das particularidades de cada mercado, elevaram as exportações da empresa. Atualmente, a centenária marca gaúcha está presente em mais de 60 países, responsáveis por negócios que representam cerca de 45% da receita. 

Em 2004, a busca pela verticalização fez com que a companhia adquirisse uma fábrica de latas em Eldorado do Sul, garantindo autonomia sobre uma das fases mais importantes da cadeia produtiva. A Oderich inovou com a criação de uma lata de fiambre retangular, exclusiva, permitindo a melhor retirada da carne da embalagem. Iniciativas assim acabaram dotando a Oderich de uma flexibilidade ímpar, tornando-a uma das opções mais ágeis, completas e confiáveis do setor. Dinâmica e eficiente, a empresa domina também as diferentes características do mercado interno e se adapta facilmente a diferentes demandas. Assim, a Oderich vale-se da versatilidade dos mais de 200 itens de seu mix para atender aos programas governamentais de Merenda Escolar – numa relação iniciada em 1979. 

Com 3,5 mil colaboradores diretos alocados em quatro fábricas – São Sebastião do Caí, Pelotas, Eldorado do Sul (RS) e Orizona (GO) –, a Oderich fabrica atualmente a mais completa linha de conservas de carnes, legumes, condimentos e compotas de frutas do Brasil, embalando aproximadamente 300 milhões de unidades por ano. A companhia mantém uma parceria com cerca de 2 mil famílias de agricultores e seleciona carnes oriundas de frigoríficos que atendem a normas técnicas de padrão internacional – certificando, dessa forma, a qualidade e a procedência de sua matéria-prima. 

Além disso, a parceria com a natureza está cada vez mais alinhada aos novos padrões de produção. Tanto que a marca tem no desenvolvimento sustentável um de seus principais valores e compromissos. Para cumpri-lo, a empresa realiza importantes investimentos em tecnologias de gestão ambiental, com especial atenção para o tratamento de água e efluentes – quesito no qual a Oderich é autossuficiente –, além da coleta seletiva e reciclagem de resíduos sólidos.

Competir com as principais marcas internacionais, oferecendo aos consumidores uma opção de produtos confiáveis, a preços atrativos e com valor agregado. Eis aí as principais metas da Oderich, que atua visando à solidificação em âmbito local e a prospecção de novas frentes de exportação. Para seguir vencendo a batalha contra o tempo, a quinta geração da família Oderich já começou a ser preparada. 

Não à toa, a identidade visual da empresa sempre teve uma estrela como ícone. Sempre radiante, o astro encontra uma maneira própria para se eternizar, mantendo-se viva pelo brilho intenso que emite. Uma marca cuja luz viaja por longos caminhos, alcançando lugar cativo e de destaque entre as grandes do Rio Grande do Sul.



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