Recuar, jamais

Para as empresas do sul, a melhor defesa contra os maus prognósticos econômicos é o ataque, revela pesquisa da PwC

Laura D´Angelo

Recuar, jamais

Calcula daqui, calcula dali. A cooperativa de alimentos Aurora bem que tentou, mas os custos crescentes com energia e combustível – que perpassam toda a cadeia produtiva e cujos preços devem sofrer novos reajustes este ano – vão pesar na conta. A realidade de 2015 já deixou claro que, para superar o faturamento e o lucro recordes do ano passado, a empresa de Chapecó (SC) vai ter de fazer alguns sacrifícios. Ao contrário do que se poderia imaginar em um cenário como esse, a Aurora não pensa em demissões nem em redução do ritmo da produção. Tampouco cogita repassar os custos ao consumidor final. “Ele está endividado”, resigna-se Mário Lanznaster, presidente da Aurora. O corte será na própria carne. Assim que passou janeiro, a cooperativa reduziu a sua projeção de margem de lucro líquido para 4,2% da receita líquida – mais de dois pontos percentuais abaixo da registrada no ano passado. “Como não dá pra repassar nem pra frente nem para trás, o resultado fica espremido”, resume Lanznaster.

Longe de se sentir acuada, a Aurora lançou mão de uma tática ofensiva: vai em busca de novos mercados, domésticos e internacionais, para dar vazão ao que é produzido atualmente por seu grupo de 12 cooperativas. A estratégia considera que, com um maior volume de vendas, os custos fiquem mais diluídos, e o nome da cooperativa se mantenha entre os principais players do concorrido segmento agroindustrial brasileiro. O caminho escolhido pela Aurora para enfrentar os desafios macroeconômicos reservados para este ano também foi o da maioria das empresas entrevistadas na pesquisa A Força do Sul, realizada pela PwC com 88 companhias de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, em dezembro de 2014. Apesar de pessimistas em relação ao desempenho da produção nacional e da preocupação com os índices de inflação, 60% delas estimam que sua fatia de mercado será maior que a de 2014. Da mesma forma, 52% afirmam que o principal direcionamento estratégico para este ano é a ampliação dos mercados de atuação e dos produtos oferecidos.

A ofensiva vai cobrar o seu preço. Para aumentar o faturamento e proteger seu espaço no mercado, as empresas sabem que terão de abrir mão de uma parte de suas margens de lucro. Cerca de 40% esperam ter uma lucratividade menor que a registrada no ano passado – índice quatro vezes superior àquele registrado na pesquisa de 2013 sobre as expectativas para 2014. “É a busca pela sobrevivência no mercado”, conclui Edson Campagnolo, presidente da Federação das Indústrias do Paraná (Fiep). A intenção das empresas em se manter no ataque – ainda que sacrificando as margens de lucro – é vista por Campagnolo como uma demonstração da persistência e da personalidade do empresariado do sul, que prefere apostar no reaquecimento da economia a demitir  funcionários capacitados. Encerrar operações, então, nem pensar. “O empresário tem sempre a expectativa de que ali na frente tudo vai melhorar. Se ele já tem uma mão de obra formada e qualificada, não vai querer se desfazer dela, pois vai precisar quando o mercado voltar a ser comprador”, analisa. A avaliação de Campagnolo é reforçada pelas empresas ouvidas na pesquisa: 75% pretendem manter ou aumentar o quadro de profissionais este ano.

Nuvem negra

Com Copa do Mundo e eleições, o ano passado foi aguardado com cautela pelos empresários dos três Estados. Pouco mais de 50% imaginavam um ambiente político-econômico igual ao de 2013. Na edição atual da pesquisa, a prudência deu lugar ao pessimismo: 44% acreditam que este ano será pior do que o anterior. Outros 29,5% calculam que 2015 será igual a 2014 – ou seja, novamente um ano de baixo crescimento e com poucas mudanças estruturais. Uma avaliação que, na opinião de Carlos Biedermann, sócio e diretor da regional sul da PwC, é fortemente influenciada pela conturbada conjuntura política, que abrange desde as denúncias de corrupção na Petrobras até a insatisfação generalizada do empresariado com as intervenções do governo na economia e a falta de interlocução federal com as cadeias produtivas.

Assim, o cenário macroeconômico de 2015 é pintado em cores escuras pelas empresas do sul: o PIB não crescerá mais de 1% e a inflação deve rondar o teto da meta estabelecida pelo governo, que é de 6,5% – apostas que até ganham tons de otimismo uma vez que, depois de passados mais de dois meses da realização da pesquisa, a economia brasileira se mostra mais fragilizada e o mercado trabalha, em 2015, com previsões de crescimento negativo e inflação acima dos 7%.  A inflação, aliás, continua entre as principais preocupações dos executivos, que elencaram o controle do índice (22,7%) – juntamente com a redução de impostos – como a principal prioridade do governo federal para este ano. O aumento constante de preços, que tanto assustou o Brasil nos anos 1980, permanece vivo na memória dos empresários, segundo Biedermann. Índices elevados de inflação representam perda do poder de compra e, consequentemente, diminuição da demanda. Além disso, encarecem os custos de toda a produção – da compra da matéria-prima à distribuição –, sobrecarregando, principalmente, as indústrias transformadoras.

Para Biedermann, mais preocupante do que a inflação elevada é a combinação dela com o baixo  (ou nulo) crescimento previsto para este ano. O fenômeno, que recebe entre os economistas o nome de “estagflação” – junção das palavras estagnação e inflação –, é uma ameaça perturbadora inclusive para economias maduras. E, no caso de países em desenvolvimento, pode ser um flagelo, comprometendo os principais indicadores econômicos e sociais por anos a fio. “Essa combinação é muito perigosa para uma economia embrionária como a brasileira”, reforça Biedermann. A apreensão é compartilhada por Campagnolo, que teme a perda de competitividade das empresas nacionais no mercado doméstico para os produtos importados.

Em compensação, a desvalorização do real ante o dólar e a recuperação  gradual da economia norte-americana e de alguns países europeus podem ser uma boa saída para as companhias se safarem dos obstáculos internos. No final de 2014, o mercado calculava que o dólar iria chegar ao final de 2015 valendo entre R$ 2,50 e R$ 2,70, patamar muito inferior ao que está sendo registrado nos primeiros meses do ano. A supervalorização da moeda norte-americana, que tem superado os R$ 3, beneficia diretamente setores exportadores característicos da região sul, como agronegócio, celulose e madeira.

A volta por cima

A esperança que conduz as empresas da região sul é claramente identificada quando a pesquisa trata da retomada da economia brasileira. A maioria (60,3%) entende que, se atendida com políticas favoráveis, a indústria brasileira recupera sua competitividade entre 2015 e 2016. Biedermann atribui o otimismo, em parte, à substituição do comando dos ministérios da Fazenda e Planejamento, ocorrida no final do ano passado, quando a pesquisa foi realizada. Inicialmente, os nomes de Joaquim Levy e Nelson Barbosa, respectivamente, acenderam uma luz no fim do túnel de 2015.

Reticente, Walter Lídio Nunes, presidente da Celulose Riograndense, não acredita, no entanto, que as mudanças apresentadas até o momento sejam suficientes para que as empresas voltem a ser competitivas em 2016. Para que a indústria tenha, de fato, condições de brigar, nos mercados nacional e internacional, o executivo defende transformações mais profundas, com reformas que atualizem e simplifiquem as legislações tributária e trabalhista. “Temos uma imensa carga tributária, uma das maiores do mundo, que onera todo e qualquer produto brasileiro aqui e lá fora”, exemplifica Nunes ao enumerar um dos fatores que influenciam negativamente a competitividade brasileira.

Não por acaso, o tema “impostos” é uma preocupação constante na pesquisa A Força do Sul. Na área econômica, os entrevistados elegeram, além do controle da inflação, a redução de impostos como prioridade para o governo federal.  E quase 70% disseram que carga e legislação tributária são os fatores que mais impactam os negócios – seguido por custos financeiros (36,4%) e infraestrutura (30,7%). Mas essas são, como se sabe, reivindicações antigas do empresariado brasileiro e cujo atendimento não ocorrerá de uma hora para outra, independentemente de quem ocupar o Palácio do Planalto. Por isso, as empresas do sul vão fazendo a sua parte para conservar a posição de destaque obtida nos mercados doméstico e estrangeiro. Apostam que, se ventos soprarem favoravelmente em 2016, vencerão aqueles que estiverem preparados desde já –  e não os que recuarem ao primeiro sinal de tormenta.


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