Orlando Orfei e o leão Cecil

Fernando Dourado Filho recorda o criador do circo que acolhia órfãos

Por Fernando Dourado Filho*

Orlando Orfei e o leão Cecil

Nos anos 1970, quem morou na cais da rua da Aurora, no Recife, há de se lembrar da chegada dos circos. Uma manhã, um enorme trator começava a revolver a terra. Depois chegavam as caravanas onde moravam os artistas e, por fim, as jaulas com os animais. Elefantes se banhavam no rio e, à noite, os tigres rugiam e nos remetiam a selvas distantes. Era como se tivéssemos uma Disney a nossos pés. Isso porque acompanhávamos a montagem da lona e, até para não perturbar os trabalhos, ganhávamos ingressos de cortesia para a estreia. Recebi alguns do anão Bartolo, empresário sério, mas pândego no picadeiro. Lembro bem do húngaro Tihany e até mesmo da linda – e inalcançável – acrobata do circo Garcia, com seu insinuante dente de ouro e sotaque de cigana.

O mais carismático, porém, era seu Orlando, o italiano de voz metalizada, dono do Orlando Orfei, ele próprio domador de feras. Líder nato, orientava os tratores, puxava os cabos de sustentação do pano e fixava as arquibancadas de martelo em punho. Ao meio-dia, se refugiava no trailer até que o sol esfriasse e, incansável, ia alimentar os leões com quem precisava ter trato diário. Mais tarde, quando começavam as funções, lá estava ele dentro na jaula imensa. De vulnerável, se agigantava. Quantas noites eu não fui dormir embalado pela sonoplastia dos números que conhecia de cor e, já na cama, escutava o estalo do chicote com que continha as feras e as fazia atravessar aros de fogo. Para que Indiana Jones? Pois bem, Orlando Orfei morreu no sábado (1º), aos 95 anos.   

Foi lindo ouvi-lo dizer, num depoimento final, que das vezes que se acidentou com os leões, o erro tinha sido dele. E que os amava, apesar de ter perdido o movimento de uma das mãos por conta de uma leoa mais rebelde. Ele que em toda função enfiava a cabeça na bocarra de uma fera, para nosso delírio e pavor. Enquanto isso, um dentista americano paga o valor de um apartamento para, covardamente, atrair Cecil, o rei de Zimbabwe, e lancetá-lo na testa. Tudo em nome da vaidade de empalhar o rei-leão e exibi-lo no consultório. Que diferença de tempos. Que espetacularização oca e vil, diante de meu herói – um homem que botava a mão na massa, deixava o terreno impecável, limpo de dejetos, acolhia órfãos e reunia virtude, visão e conhecimento.   

Descanse em paz, seu Orlando. Jamais esquecerei o homem de cabelo frondoso – uma mini-juba –, colete preto, um chicote sonoro, o sorriso valente e que apostava o pescoço para nos dar uma lição de avaliação de risco, coragem, liderança e amor ao ofício. Amigo de quatro Papas, pintor e escritor, ele se provou um renascentista na melhor tradição peninsular. Quando aparecia na televisão, falava de mensuração de riscos sem parvoíce nem pedantismo. Caudatário de uma história que começou há dois séculos à raiz de um amor proibido de seus ancestrais, não o esquecerei enquanto puder. As tardes do Recife davam lições que, pensando bem, era o caso de levar para a vida. Bravo, bravíssmo.  

*Fernando Dourado Filho é articulista da Revista AMANHÃ.     


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