Além da lipofobia

No geral, contudo, tenho má imagem de gordos. Dos outros gordos, claro

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Nunca fui um sujeito dito vaidoso. Ou melhor, nunca contou para mim a aparência ou como era visto. Sempre achei, na verdade, que um homem não precisava ser bonito, embora não se recomende que busque ser feio ou repulsivo – como é moda entre os jovens. Importante era que tivesse aptidões que o habilitassem a interessar a mulheres bonitas, estas sim. Dito de outra forma, a um homem competia ser culto. Daí derivaria seu poder. Às mulheres, que fossem belas, fonte de sua força. Se um homem fosse charmoso, ademais de inteligente, tanto melhor. Se ela fosse brilhante, além de formosa, ótimo. E se formassem um casal, eis o melhor dos mundos. Havia isso fora do cinema? Sim. Quem? Sei lá, Bruna Lombardi e Ricelli. Ou Janete Costa e Borsoi.  

Não vou fazer um inventário de minhas seis décadas de vida. Mas aos 50 anos, com quase 1,90 quando calçado, eu pesava 111 kg bem distribuídos. Saudável? No geral, sim. Assumido em meus inúmeros defeitos – apenas um pouco mais doce do que ácido –, só tomava um remédio para controle da pressão que, infelizmente, tive que suspender ao me descobrir asmático. Sem o betabloqueador, fiquei voraz à mesa. E, aos poucos, fui consolidando seis quilos desde então... a cada dois anos. Hoje estou esférico, o que não chega a me desesperar. A indústria do auto-engano é poderosa e sou dos que acham que um mês de spa me resgatará do risco. O grave é que gosto bastante do que vejo no espelho, e me recuso a enxergar ali apenas dez arroubas de carne.

No geral, contudo, tenho má imagem de gordos. Dos outros gordos, claro. Considero-os desleixados e, talvez, reféns de baixa auto-estima. Não é incomum que os veja com apreensão por saber que serão presa fácil para armadilhas fatais – AVC, infarto, embolia e distúrbios metabólicos. Assim sendo, além de estarem fora de moda, se é que já estiveram um dia, os gordos se ressentem de sensível deterioração de "valor de mercado." Atravessei incólume dos 50 até agora, apenas resfolegando em ladeiras. Sair dos 60 e chegar aos 70 sem arranhões será miraculoso e não posso contar só com a sorte. Mais do que tudo, até gordos que escrevem com humor e estilo, padecem de séria distorção na forma de se perceberem. Aí mora o maior perigo.   


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