Carinho de mãe ou traço cultural?

Para ela, uma vida impessoal é destituída de sentido

Por Fernando Dourado Filho , do Recife (PE)

Para mamãe, uma vida impessoal é destituída de sentido

Domingo fui almoçar com mamãe. Conversamos sobre uma pauta infinita e, como o restaurante já ia fechar, decidimos esticar o papo na casa das irmãs dela. Era uma forma de estarmos todos juntos visto que normalmente isso não acontece. Como sabe o leitor, moro em São Paulo e no mundo, e mesmo quando estou aqui no Recife, nem sempre é fácil dispormos todos de tempo para grandes confraternizações. Para mim, não é exercício de todo óbvio ou fácil, devo admitir. Manda a boa educação nordestina que as atenções se voltem todas para o visitante extemporâneo, e que se lhe dirijam perguntas as mais variadas como forma de externar preocupação e carinho. 

Não é um bombardeiro de todo indolor. Várias vozes – de tias e primas – engrossam os alertas contra as armadilhas da saúde. Não acho que estou demasiado gordo? Que tal ir a um Spa de um conhecido delas? Por que não visitar Dr. Fulano, que conseguiu fazer com que o primo perdesse duas arrobas só com reeducação alimentar? E como vai a vida afetiva? Será que é mesmo salutar buscar sobreviver de literatura? E por que viajar tanto? Não tenho medo de atentados terroristas? E se passar mal numa calçada nevada em Kiev, quem há de me socorrer? Continuo ateu? Mas como pode uma pessoa viver sem Deus no coração? Verdade que não sei rezar? 

O mais doce aconteceu na segunda-feira. Mamãe me ligou por volta da hora do almoço e disse que estava bastante preocupada. Achava minha vida impessoal e distante das pessoas. A impressão que dava é que mesmo quando estava aqui no Recife, não tinha muito com quem prosear. Para ela, ter companhia é uma espécie de luxo mínimo que integra o kit da vida. "Por que você não larga tudo e vem morar aqui comigo? Aí poderíamos ficar conversando e eu providenciaria o anteparo que lhe faltou a vida toda, nessa existência de tantas andanças?" Um amigo com quem estava ficou curioso de saber sobre o que ela falara, a ponto de me irritar e comover ao mesmo tempo. 

Então lhe contei a história. Para ilustrar na moldura intercultural, falei do pintor Robert Ploeg, holandês que vive em Pernambuco e que é casado com nordestina. Quando namoravam, pegaram um trem na Holanda. Ao percorrer o corredor, a mulher apontou um compartimento em que tinha três viajantes e disse que ficariam ali. Mas ele argumentou que havia vários vazios. Por que não ficarem sós? Ela disse que aquilo lhe parecia uma opção triste, quase mórbida, pois o bom era estar em companhia. Mesmo assim é mamãe. Para ela, uma vida impessoal é destituída de sentido. Pouco importam as redundâncias do convívio, elas são preferíveis ao isolamento. Achei engraçado e fiquei enternecido.

Sim, feliz de quem tem à volta pessoas que ainda pensam assim. Mesmo que você não seja uma delas.     


comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: