Danuza Leão, a última da série

Como ela mesma diz, não é uma chatice a tal realidade? Tomemos mais um Champagne e um tarja preta, e imaginemos o baile

Por Fernando Dourado Filho, de Recife (PE)

De vez em quando, compro o "Globo" do domingo só para ler a crônica de Danuza Leão. É como se os cinco minutos que tomam a leitura me remetessem de volta a algum lugar no século passado, quando as mulheres do high society dormiam até o meio-dia, só se levantavam depois de uma sessão de massagem, almoçavam rúcula com endívias, e só depois de uma taça de Champagne com um remédio despertassem para a vida, mesmo porque quando a tarde chegasse ao fim, já queriam estar a postos para se embonecar, e receber seus maridos para um uísque. É claro, a noite acabaria em algum jantar numa embaixada, ou numa sessão privada de jazz em casa de amigos, regada a destilados e cigarro egípcio numa piteira de madrepérola. 

Invariavelmente, essa mulher que Danuza idealiza passa horas ao telefone enquanto a pedicure se ocupa das unhas. Para as amigas íntimas, ela suspira sobre as crises de ciúmes do marido, o tailleur repetido de certa desafeta e, como é outubro, vão combinar de falar com os respectivos desde já sobre uma esticada a Nova York na primeira semana de dezembro – para de lá trazerem uns presentes e atualizar o guarda-roupa –, à que deverá se seguir, mais adiante, se a neve estiver boa, uma temporada em Gstaad, onde poderão jantar com os potentados da indústria cimenteira egípcia ou com aquele casal de libaneses hospitaleiros que leva-os ao camarote em Longchamp, em cujas baias cria lindos cavalos ingleses. 

Vejo que os ares do bon vivant são mil vezes mais contagiantes do que os dos apenas remediados. Samuel Wainer, a quem não faltou dinheiro durante certa quadra da vida, gostava de encomendar camisas sob medida às dúzias para desfilar na noite carioca. Já Antonio Maria, coitado – obeso, pobre, nordestino, boêmio e mulato –, o outro marido que teve, sonhava com o bife à milanesa do Jangadeiros que, segundo ele, era do tamanho de um lenço aberto. De onde ela tirou esse repertório, fico me perguntado? Ela que até alguns anos ficava num hotel muito modesto no Quartier Latin? E que confessou abuso de certos programas porque tinham se tornado acessíveis a quem ela não gostava de cultivar. Mas escrever é imaginar.   

Coisa boa mesmo é que esse homem imaginado por Danuza já não exista mesmo. O que seria ele? Uma mistura de Antenor Mayrink Veiga com um tycoon texano com gotas de sangue alemão. Esse homem ciumento, vigilante, apaixonado (ma non troppo), aloof' e onisciente, que era capaz de quebrar um cassino e/ou de doar milhões a Bangladesh, pois bem, ele não existe nem talvez nunca tenha existido. Melhor que seja assim. Esse simulacro de lobista-estadista-banqueiro-filantropo-garanhão-donjuan-plutocrata-visionário-trader-jogador-magnata que ainda hoje mexe om seus instintos mais naturais (o que é muito bom), estaria numa cela de segurança máxima e nem a condição de centenário poderia aliviar a situação. 

Mas, pensando bem, e como ela mesma diz, não é uma chatice a tal realidade? Tomemos pois mais um Champagne e um tarja preta, e imaginemos o baile. No dia que Danuza se for, aí sim, podemos dizer que virou-se de vez uma página. 



comentarios




Carla Mel

Adorei! Faltou Ibrahim Sued e o Hypopotamus....

Eloisa Zeitlin

Espanto de crônica!

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