Ásia em 2030: mais velha e mais rica?

Não há acordo entre especialistas se o enriquecimento beneficiará a população ou se continuará desigual como é hoje

Por Milton Pomar

Não há acordo entre especialistas se o enriquecimento beneficiará a população ou se continuará desigual como é hoje

A armadilha na qual alguns países asiáticos deverão cair nos próximos anos é a de envelhecer antes de enriquecer, perdendo definitivamente a oportunidade de chegarem lá, por atingirem o estágio da renda média com mais de 30% da população idosa. Ou empobrecerem após atingir o patamar de renda alta, como talvez seja o caso do Japão, país com envelhecimento populacional mais avançado do mundo. 

Mais de meio bilhão de pessoas na Ásia com 60 anos de idade ou mais, dos quais 225 milhões na China, devendo chegar a 1,26 bilhão em 2050 – segundo a publicação World Population Prospects: The 2017 Revision, do Departamento de Economia e Assuntos Sociais, da Divisão de População das Nações Unidas – constituem promissor mercado consumidor de bens e serviços especializados, tanto maior conforme aumente a renda da população nos países da região e, em particular, da sua parcela idosa. A Ásia responderá, até 2050, por 65% do incremento de pessoas com 60 anos de idade e mais na população mundial. Apesar da quantidade elevada, as idosas e os idosos na China representavam apenas 16% de sua população em 2017, muito menos que o Japão (33%) e abaixo de Hong Kong (23%), Rússia (21%), Coréia do Sul (20%) e a Tailândia (17%). E era quase o dobro dos 9% da Índia e da Indonésia – e bem mais que os 11% do Vietnã e os 12% da Turquia, por exemplo. 

Anima saber que é esperada melhora tão significativa da qualidade de vida na Ásia nas próximas três décadas, com os demógrafos projetando expectativa média de vida superior a 80 anos em todos os países. E o fato de tanta gente poder superar centenários: em 2015, havia 27 mil pessoas com 100 anos de idade ou mais na Índia, 48 mil na China e 61 mil no Japão. No total, 450 mil pessoas nessa condição no mundo – número acanhado, se comparado com os esperados 3,7 milhões em 2050, quando a China deverá ter 620 mil pessoas nessas condições, o Japão 441 mil, e a Índia 207 mil. Em 2050, a Ásia será duplamente “idosa” – no caso do Japão, por exemplo, as mulheres são 88% das 69,8 mil pessoas com 100 anos de idade ou mais, segundo relatório do Ministério da Saúde, Trabalho e Bem Estar, de setembro do ano passado. As mulheres vivem seis anos a mais, em média, do que os homens; no caso da Rússia, elas vivem 11 anos a mais que eles, a maior diferença entre os dois gêneros em todo o mundo.

Viver até 90 ou 100 anos resulta em mais demandas em todas as áreas: cultura, lazer, esportes e atividades físicas, turismo – e em demandas de saúde específicas da “terceira idade”, com custos muito mais elevados do que os necessários para a parcela de crianças e adolescentes. Conhecer as projeções sobre a evolução populacional do mundo, e da Ásia em particular, tem grande valor para o planejamento estratégico empresarial, principalmente para quem exporta ou pretende exportar para lá. Países populosos menos conhecidos, como Bangladesh, Paquistão e Indonésia, poderão se tornar grandes importadores de alimentos e outros produtos do Brasil nos próximos anos. Em 2017, os três juntos tinham 626 milhões de habitantes. Essas nações devem ultrapassar os 700 milhões em 2030 e os 800 milhões em 2050.   

Como o envelhecimento acelerado da população impactará o mercado consumidor asiático? E as suas políticas migratórias e de trabalho? Essas são perguntas fundamentais para as economias que mais crescem no mundo, como a da China e da Índia, e para a de países menos populosos, como a Coreia do Sul, que deverá ultrapassar os 30% de pessoas idosas dentro de 11 anos; a Tailândia (27%) e a Rússia (23,9%). A situação da Rússia é agravada pelo baixo índice de fertilidade, de 1,75 filho por mulher, bem menos que o mínimo de 2,1 filhos por mulher para manter a população, resultando em queda dos atuais 144 milhões de habitantes para 133 milhões em 2050.

Além disso, centenas de milhões de pessoas ingressando na condição de “idosas” obriga à criação de políticas públicas específicas e a destinação de recursos adicionais para atender as novas demandas. Parte desses novos sexagenários continuará trabalhando, em um mundo no qual o desemprego de jovens continuará elevado, com as implicações sociais conhecidas. 

O novo mercado idoso
Denominar o mercado consumidor de idosas e idosos na Ásia de “novo” é correto, porque as mudanças demográficas em andamento resultarão em aumento expressivo do seu tamanho, dos atuais 540 milhões para 1,26 bilhão de compradores, e em mudança qualitativa profunda, pois será necessário criar produtos e serviços, formar profissionais e até alterar paradigmas – por exemplo, elevando o “teto” de permanência em determinadas atividades profissionais, nas quais é comum encontrar pessoas com 80 anos de idade ou mais, atuando com lucidez e disposição. 

Parte da demora que está ocorrendo em nos darmos conta da magnitude do envelhecimento da população mundial certamente tem a ver com a rapidez com que tudo ocorreu: há 80 anos, a expectativa média de vida era de 40 anos de idade. No Brasil, em 1940, a média era de 45,5 anos, sendo 42,9 anos para os homens e 48,3 anos para as mulheres. Viver mais resulta também em mais mortes por suicídios – enquanto a média geral no Japão é de 24 por 100 mil, esse índice é de 80,9 (homens) e de 39,8 (mulheres) entre pessoas com 60 anos de idade ou mais. A China teve a terceira maior taxa mundial de suicídio entre idosos; a parcela com 65 anos e mais teve a maior taxa no país (44) e na área rural, entre pessoas com 60 anos a 84 anos de idade, essa estatística foi de 82,8 por 100 mil. – situação pior que a da Coreia do Sul, onde a taxa geral é de 14,6 por 100 mil, e de 39,3 para pessoas com 75 anos de idade ou mais. São indicadores impactantes e todos os estudos sobre o tema concordam que o suicídio de idosos na Ásia é um problema muito sério.

O envelhecimento da população desses países é um fato incontestável e inevitável. O que não há acordo entre os especialistas é se o enriquecimento japonês, chinês e coreano beneficiará o conjunto das populações desses países ou continuará desigual e extremamente concentrado como é hoje. Essa talvez seja a questão central do envelhecimento na Ásia, porque envelhecer com qualidade requer um mínimo de condições materiais. Somente a boa condição financeira é que explica a quantidade de idosas e idosos fazendo turismo no mundo inteiro. É a explicação para o intenso turismo interno na China, a partir dos anos 2000, e há mais tempo de japoneses e coreanos na Europa, Estados Unidos e até no distante Brasil.

Certamente a China será o país da Ásia mais afetado pelo envelhecimento acelerado de sua população. Matéria da revista Time, de fevereiro, alerta a esse respeito que a China “cujo extraordinário peso econômico foi construído com base na mão de obra intensiva e que não tem rede de proteção social para proteger os idosos, está excepcionalmente mal preparada para as mudanças sociais que essa onda cinzenta trará. Todos os sinais sugerem que o país envelhecerá antes de ficar rico – e o impacto já está se fazendo sentir.”

Sim, a China corre esse risco. E é justamente por isso que há quase 20 anos o país vem se preparando para esse momento de redução populacional e aumento considerável do tempo de vida da população idosa, e respectivos efeitos negativos sociais e na economia. Quando ficou evidente, por volta de 2010, que o controle rigoroso de natalidade, implantado em 1980, cumprira o seu papel e a sua continuidade seria desastrosa, primeiro flexibilizaram-no e depois aboliram-no. Agora, em desespero de causa, tentam estimular os jovens a terem filhos. 

É muito provável que essa nova política visando rejuvenescer a população urbana chinesa não alcance os objetivos, pois a parcela jovem cresceu focada em conseguir sucesso nos estudos, ter trabalho, carro etc. Casamento é empecilho e filho, algo para depois. Não passa pela cabeça da juventude das grandes cidades ter dois filhos, pois o alto custo de vida e as dificuldades cotidianas espantam qualquer sonho a esse respeito. Familiares mais velhos pressionam para que o filho ou filha tenha filhos e se oferecem para ajudar, mas ainda assim é muito improvável que essa geração, hoje com 20 ou 30 anos, se anime a viver em dinâmica tão diferente da sua quando criança – a atual é a geração de filhos únicos resultante da política implantada em 1980. 

O horizonte populacional para o gigante asiático é realmente muito sério. A China deverá chegar em 2100 com o mesmo um bilhão de habitantes que tinha em 1980, quando tomou a decisão de restringir o crescimento demográfico (nos anos 1970, aumentou mais de 10 milhões de habitantes por ano). Só que antes de reduzir tanto a sua população, reduzirá primeiro a parcela economicamente ativa e é aí que mora o perigo. Afinal, haverá cada vez mais gente para ser sustentada e menos gente sustentando. E na falta de aposentadoria para todos, os filhos ou filhas é que terão de sustentar os pais e as mães e, às vezes, também os avós maternos e paternos.

Envelhecimento, preocupação mundial
A Organização das Nações Unidas (ONU) contempla a Ásia, na questão do envelhecimento, com duas comissões regionais: a Comissão Econômica e Social para a Ásia e o Pacífico (Escap) e a Comissão Econômica e Social para a Ásia Ocidental (Escwa). Em 2002, durante a 2ª Assembleia Mundial das Nações Unidas sobre o Envelhecimento, em Madri, houve a adoção do Plano Internacional de Ação contra o Envelhecimento (Mipaa). Esse plano é revisado a cada cinco anos, sob a coordenação do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais, responsável na ONU por facilitar e promover o Plano de Ação Internacional de Madri sobre o Envelhecimento, o que inclui “a elaboração de diretrizes para o desenvolvimento e implementação de políticas; advogar meios para integrar as questões do envelhecimento nas agendas de desenvolvimento; engajar-se no diálogo com a sociedade civil e o setor privado; e troca de informações.”

O interior envelhecido do Sul do Brasil
Até 2030, quase todas as cidades do interior dos três estados da região Sul terão mais de 20% de idosas e idosos em sua população, o que as caracterizará como “cidades idosas”. Muitas delas terão mais de 30% e é provável que algumas atinjam 40% – em todos os casos, resultando em situações caóticas, porque não há recursos nem políticas públicas para atender as demandas específicas dessa população idosa. E, também, porque a sociedade não está preparada para essa mudança cultural tão significativa. Essa previsão talvez assustadora baseia-se nos dados municipais de 2018 do TSE e no Censo do IBGE de 2010 e faz parte de estudo que realizei sobre a evolução demográfica dos três estados, focado nos municípios do interior com até 50 mil habitantes. 

A situação demográfica do interior do Rio Grande do Sul hoje é a pior do Brasil, e a de Santa Catarina e do Paraná seguem próximas. Com a diferença, no caso catarinense, que a sua população continuará crescendo, graças em grande parte ao recebimento de migrantes. Com o título provisório Revitalizar o interior – desenvolvimento econômico para rejuvenescer a população, o estudo sobre o Sul interiorano tomou como parâmetros a situação da área rural da China e a do interior de Portugal. Nos dois países, os governos estão tentando reverter o declínio populacional e econômico com políticas públicas e financiamento. Em Portugal, o governo lançou, em outubro de 2016, o programa interministerial “Coesão Territorial”, do qual o primeiro dos oito eixos é “Envelhecimento com Qualidade”. 

Portugal tem população quase igual à do Rio Grande do Sul e área semelhante à de Santa Catarina. A litoralização de sua população é praticamente igual à catarinense. Seus indicadores demográficos são um pouco piores do que os do Rio Grande do Sul, o que permite afirmar que o interior de Portugal hoje é o interior gaúcho amanhã. E, por incrível que pareça, a situação demográfica do interior sul-rio-grandense também se assemelha muito com a da China.


comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: