Beijo é manifesto?

Sou de um tempo onde ser homossexual era não só chacota, mas, a depender do status da vítima, caso de polícia

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Obra "Vingadores: a cruzada das crianças" é motivo de censura na Bienal do Livro do Rio

Quem não se lembra do primeiro beijo? E será que há alguém que ainda não tenha passado por essa experiência? Imagino que sim e deploro. Mas vamos lá, vou tentar botar ordem em minhas toscas ideias para abordar um tema que tem o seu fascínio e que, como tudo no Brasil – e quando dito tudo, é tudo –, foi alçado a polêmica, dando lugar até a brigas de família. E por que? Tudo por conta de uma ordem de apreensão do prefeito do Rio de Janeiro que, diga-se desde já, é uma das figuras mais anódinas e toscas da política carioca de todos os tempos. Mas não percamos tempo com ele e com seu incrível zelo em exigir plastificação de uma literatura que retratava um certo beijo gay. Admito que deva ser mais fácil agradar a plateia dele fazendo alarde com tão pouco do que consertando dia após dia, anonimamente, a Avenida Niemeyer. 

Mas voltemos ao beijo em geral. E aí o leitor me permitirá escancarar um pouco de minha intimidade e, por favor, não se sinta constrangido com o que direi nesses tempos de muitos pudores aflorados. O primeiro beijo de verdade que dei e levei (pois aqui também é dando que se recebe), foi em 19 de julho de 1973. Eu tinha 15 anos, estava em Paris, e uma ruiva com o dobro de minha idade me agarrou num banco do Caminho dos Cisnes, perto da torre Eiffel, e me tascou um beijo que ainda hoje não sei se durou um minuto ou quinze. Ela ainda tinha açúcar no canto dos lábios e no queixo porque acabara de comer um waffle, lá dito "gaufre". Quando terminamos, ela me perguntou "c´était bon?" Eu não sabia o que dizer. E a melhor resposta foi mesmo segurá-la pela nuca, respirar fundo e partir para o segundo para tirar a prova dos nove. Digamos que nunca mais parei. 

Saí com ela por mais alguns dias. Marcávamos encontro na ponte de Alma e, como era verão, passeávamos ao longo do Sena, fazíamos interrupções para novos beijos e nos aventurávamos pela anatomia um do outro sob as pontes. O certo é que, mesmo na libertária Paris, com "O último Tango" e "Um sopro no coração" em cartaz em cada esquina, nosso beijos não passavam despercebidos. Lembro de uma senhora  com uma sacola de supermercado que parou para falar de "pudeur" e de três militares a passeio que perguntaram a Thérèse se eu não era um pouco jovem para aquilo. Antes que ela respondesse, eu me vali do repertório mais másculo e adulto possível e encarei-os com insolência enquanto dizia a ela. "Não ligue para esses babacas, minha querida." Ela sorriu e eles deram uma enorme gargalhada pela minha ousadia. Fiquei sem graça, mas recomeçamos.

Com o passar dos anos, o exercício continuou. O que é melhor, é que eles dificilmente se banalizaram, e abriram sim o começo das relações. Eu já tinha ouvido de mais de uma mulher que elas sabiam se um namoro iria rolar ou não, apenas com um beijo. Era o termômetro para saber se o idílio duraria uma noite, uma semana, um mês, um ano ou se o relacionamento era para a vida. Aprendi também que não havia técnica que substituísse o desejo de intimidade. Se ele fosse verdadeiro, os lábios se abririam feito conchas, as línguas se entrelaçariam suavemente, as salivas viravam uma só, o ritmo da respiração encurtava e, dali em diante, estava selado um pacto. Do beijo em diante, podíamos (até devíamos) andar de mãos dadas, e tínhamos o dever de ser carinhosos e testar uma fórmula doce como nossa amada gostaria de ser tratada. 

No meu caso, nunca tive essa experiência com homens, pasmem. Aos 61 anos, nunca me passou pela cabeça beijar outro homem. Tudo me repeliria na experiência. E por que? Paradoxalmente, por ele vir com o mesmo "kit" que já tenho. Ademais, beijar bigode, passar a língua por um rosto com barba, ouvir sussurros em voz grossa, francamente, para mim é impensável. Se não fosse, eu diria. Lembro de uma brincadeira que os colegas um dia fizeram. "Você beijaria essa mulher?", e aí mostraram uma foto. "Claro, na hora", eu respondi. Todo mundo riu. "Pois é um homem, rapaz, é Roberta Close, mas é homem. E agora?" Entre galhofeiro e sério, eu dizia: "Mesmo assim, essa aí não tem problema, é bonita demais para se pensar que é um homem." A troça continuava. "E se ela pedisse para...". Eu só respondia: "Só se sabe na hora.”  

O que é mesmo certo é que eu lembro de beijos em muitos cenários. Mas quando eles eram públicos, o que de vez em quando acontecia, ali mesmo no parque Trianon, da Paulista, o entusiasmo era prontamente reprimido com um tapinha nas mãos: "Aqui não", "ainda não", "que falta de modos", "não seja vulgar", "o policial está olhando", "guarda isso aí", "você é louco", "mais tarde", "hã hã hã" (o pior de todos), e assim nós, esses pobres heterossexuais, responsáveis pelo nascimento de todos os humanos sobre a Terra, em trabalho de equipe muito prazeroso com o sexo oposto, fomos aprendendo a conhecer nossos limites. E, das mulheres mais pobres às mais ricas, das feiosinhas às mais exuberantes, das analfabetas às doutorandas, todas, sem exceção, sempre gostaram que tivéssemos compostura ao abraçá-las para beijá-las. 

É claro que há entre nós, os homens que são deliberadamente vulgares e sem modos, uma chusma de complexados que fazem das demonstrações de afeto um show de dominância, exibição e afirmação. Um pouco à la Trump, digamos. Mas essa não é a regra vigente nas culturas urbanas. Por durão que seja, um homem será sempre muito sensível à censura feminina. Ele pode até não inspirar amor ou afeto, mas ele se sentirá mal se inspirar asco. Isso dito, mesmo nas capitais mais libertárias do mundo, você não vê beijos cinematográficos nas ruas entre heterossexuais. Tem o do casal de Robert Doisneau diante da loja Samaritaine, em Paris, e aquele do soldado que beija e enfermeira numa Rua de Nova York ao fim da guerra. Treinados desde cedo pelas mulheres a nos pautar, somos bem tranquilos quanto a isso.

Por um imenso elenco de razões, os gays não tiveram esse privilégio. Eia a gênese da catástrofe. A grande maioria deles fez um aprendizado tardio, culposo, proibido, clandestino e, certamente, doloroso em função da pecha de "anormalidade" que os esmagava, e aqui também coloquemos elas. Sei de gays que saíram do armário depois dos 30, 40 anos. De gente que suportou uma relação heterossexual de fachada e sofreu horrores. O que quero dizer? O beijo entre gays é fortemente impregnado de simbologia política. Ele tem um significado que transcende o prazer a que me referi nas primeiras linhas. Ele não se basta sozinho. Ele não se esgota ali. Ele frequentemente precisa ser compartilhado com audiência porque o afrodisíaco que o nutre é também a cara fechada dos caretas e os vivas dos libertários. "Dá-lhe, bacurau, é nós, manda ver, termina serviço aí mesmo". É o Brasil, pessoal. 

Isso dito, concluo com o cerne da questão e um exemplo. Vamos ao exemplo primeiro. Dia desses nós éramos seis escritores tentando entabular uma conversa. Três deles, que estavam de frente para a parede, do outro lado da mesa, traíam na expressão um certo desconforto. Virei-me para ver o que era. Dois rapazes se beijavam, cada um sentado num banco alto. A mão de um acariciava a região peniana do outro. O outro enfiava a mão por baixo da camisa do namorado e lhe pespegava beliscões nos mamilos. Quando vi em volta, dez pessoas tentavam desviar o olhar, um ou outro pedia a conta e gente de todas as idades, inclusive um casal gay, balançava a cabeça em reprovação. É claro, ninguém está louco de fazer uma censura e pedir recato. Se a livraria fizer isso, estará queimada em todas as redes sociais e o dono (que já vive dias difíceis) ganhará a pecha de homofóbico.  

O que quero dizer? O beijo ternura, incontrolável, talvez até furtivo e por impulso, este será perdoado até na Coreia do Norte ou em Burkina Fasso. O problema é que muitos desses beijos entre homossexuais em lugares públicos se pretendem um manifesto, um grito de afirmação e orgulho, um ato de resistência (isso cansa). A falta de ter tido mulheres de verdade – não falo de homens efeminados que, em última instância, trazem a impulsividade masculina embutida –, não lhes deu limites e, muitas vezes, a compostura devida. Nós, homens, sabemos bem que temos impulsos que transbordam o padrão civilizado. Os homens gays eles são, quer queiram quer não, homens. E até algumas lésbicas ou trans (não sei direito o que é, admito), emulam o comportamento agressivo masculino para se provarem autênticos (as). Daí o imenso mal-entendido. 

O Brasil é um país violentíssimo, mas é também uma terra de afetos, de demonstrações públicas de carinho como nenhum outro. Não lembro de ter visto em 46 anos de visitas a Paris um só casal homossexual andar de mãos dadas nas ruas. Nunca vi em Buenos Aires, em Nova York, e vi um em Chicago (que ia até além), mas estavam bêbados pelas festas do Saint Patrick. Nunca vi gays se tocarem em público na Ásia. Ótimo, que continuemos assim. Aqui até bandido de alta periculosidade tem direito à sua cota de carinho com visitas íntimas. Mesmo a um monstro com 15 mortes nas costas, não se nega o sacrossanto direito de ter uns minutos de alcova. Mas até por conta disso, e aqui já nem falo das paradas ou do Carnaval, o lado político das demonstrações criou uma figura raríssima: o gay homofóbico. Que pode ser um gay bem educado, depondo contra um gay mal educado.

Concluo. Convém lembrar, mesmo em tempos de resistência democrática – o que quer que esse conto do vigário signifique –, que tem gente cujo aparelho de cognição não alcança mudanças de paradigma muito bruscas. Tem gente que merece nosso respeito, que resistiu à televisão em favor do rádio, que resistiu ao computador em nome da televisão, que resistiu ao smartphone em defesa do computador, e que resiste à transfusão de sangue em nome de um dogma religioso. Daí que é lícito, sim, que a sociedade vaie o prefeito e aplauda a liberação dos costumes. Sou de um tempo e de uma região onde ser homossexual era não só chacota, mas, a depender do status da vítima, caso de polícia, da delegacia de Costumes. Mas que a falta de iniciação sexual pelas mãos de mulheres – com tapinhas concitando à moderação – não transforme nossas ruas em palco de manifestação permanente. 

Vida é libido. Mas não é só libido. Tem todo o resto a cultivar. É isto. 


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