Você sabe o que é Hype Cycle?

A tecnologia é apenas o meio. A realidade é mais tranquilizadora do que alarmista

Por Letícia Polydoro

Gráfico do Hype Cycle de tecnologias emergentes em 2018

Atuo no mercado há tempo suficiente para ler sobre especulações de como seria o nosso futuro por conta das transformações tecnológicas e constatar a realidade do que realmente aconteceu. Alguns profissionais da área de inovação gostam de causar impacto afirmando que muitas das profissões de hoje em breve não existirão mais, que o futuro está nos robôs e que o ser humano será cada vez mais dispensável. Vale lembrar que, há cerca de 15  anos, muitos afirmavam que a vida se replicaria no universo virtual do Second Life, só para dar um exemplo de previsão equivocada. Empresas grandes investiram alto para estar naquela plataforma e garantir a sua perenidade. Quantos ainda lembram disso?

Muita gente hoje faz afirmações sobre o que acontecerá dentro de 15 anos com a mesma certeza dos futuristas de outrora. Algumas delas até se concretizarão, mas a maioria serve mais para vender consultoria, palestras e livros, tudo isso à custa de muita ansiedade de seus públicos. A área da tecnologia é muito propensa ao que chamamos de hype — novidade que rapidamente adquire status de grande inovação e o comportamento humano de manada se encarrega de legitimá-la como a grande disrupção transformadora da sociedade, sem muito questionamento. Ao passar a fase de entusiasmo, a tecnologia deixa de ser novidade e então começa-se a questionar o seu propósito (acima, um gráfico do Hype Cycle de tecnologias emergentes em 2018).  O Gartner criou um modelo para analisar o fenômeno: o Hype Cycle, constituído de cinco etapas:

1ª) Gatilho de inovação - Primeira fase do Hype Cycle, quando surge uma tecnologia potencialmente inovadora que começa a despertar interesse público e a ganhar grande exposição nas mídias.

2ª) Pico de expectativas - É quando a popularidade e as expectativas em relação à nova tecnologia chega ao seu ápice.

3ª) Vale da desilusão - É a fase em que a novidade passa e começam a surgir os questionamentos sobre o propósito da tal tecnologia. Após o pico exagerado, vem o declínio ao se constatar que ela não merecia tanto destaque. O nome "desilusão" decorre, pois a curva inclina-se para baixo e a adoção da tecnologia cai significativamente.

4ª) Declínio - É quando o mercado avalia a tecnologia de forma mais racional. Algumas delas simplesmente desaparecem por total falta de aplicabilidade, enquanto outras são mantidas por um número restrito de empresas que estudaram onde ela pode ser aplicada de forma a trazer algum retorno de mercado.

5ª) Planalto de produtividade - É quando a tecnologia ganha estabilidade (nem todas chegam nessa fase) e ganha a adesão do mercado. Algumas empresas de perfil mais conservador só passam a adotar a tecnologia quando ela chega neste status.

Analisar esse processo é importante para ficarmos menos suscetíveis às hypes que surgem a todo instante. Estou longe de ser uma detratora da inovação. Mesmo antes de trabalhar nessa área, já era grande entusiasta. Que estamos passando por uma era de revolução digital, isso é fato. Que alguns mercados se foram para dar lugar a outros, também. Mas o que determina essas transformações é o aspecto humano e não o tecnológico. A tecnologia é apenas o meio. A realidade é mais tranquilizadora do que alarmista. Não se ”vira a chave” de uma hora para a outra quando se fala em comportamento humano. 

A transformação tecnológica possui a sua própria velocidade: ela não é tão rápida a ponto de não conseguirmos nos adaptar, e nem tão lenta a ponto de nos permitir ficar parados em nossa zona de conforto apenas como expectador de mudanças evidentes. E qual o timing certo para a essa mudança? A resposta é: não se deixe levar pelas hypes e calibre o seu próprio tempo.


comentarios




Karen F. Bopp

Muito legal a matéria!! Concordo que o que determina essas transformações é o aspecto humano.

Cláudia Pisco

Matéria muitíssimo relevante em tempos que não estar a par de todas as tecnologias gera uma sensação de "estar fora do jogo".

Marlise

Otima matéria! Muito bom esclarecer que "nem tudo que reluz é ouro".

Mariana Candiago

Perfeita, como sempre!

Claudia Scalco

Leticia, parabéns pela matéria! Hype com moderação, equilíbrio e sabedoria ;)

Beti Sefrin

Ótimo artigo. Penso isso, mas agora embasasses. Adorei.

Clara Pechansky

Letícia consegue acalmar a ansiedade gerada por pitonisas futuristas, que criam alarme em relação à tecnologia, sem apresentar soluções.

Jorge Polydoro

Letícia, essa é visão com a qual nós da AMANHÃ sempre nos identificamos. As variáveis são tantas que é impossível antecipar o futuro senão com uma grande margem de erro. Assim, como quase sempre, é na poesia que encontramos as melhores perguntas e as melhores respostas. Esse é o caso da letra do compositor João Sérgio para o samba enredo O Amanhã", da escola União da Ilha em 1978: "Como será o amanhã Responda quem puder O que irá me acontecer O meu destino será como Deus quiser".

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