Cannabis sativa

O Brasil é um lugar dado a dar uma roupagem moralista a questiúnculas de há muito superadas em outros países

Por Fernando Dourado Filho, de São Paul (SP)

Cannabis sativa

Se há um tema do noticiário que não me causa o menor interesse é o ligado à legalização, descriminalização ou uso da maconha na fabricação de remédios Sei que trata-se de uma questão de saúde pública e que resvala a perigosa fronteira da criminalidade, o que dá tons explosivos à narrativa. Por outro lado, sei que haverá sempre gente abalizada de ambos os lados a defender com argumentos fortes uma causa ou outra, e não serei eu quem vai desempatar o jogo. Para que não pareça que minha omissão é total, tanto quanto minha abissal ignorância, sinto-me tentado a dar um palpite. 

Mais do que um palpite, trata-se de um testemunho de quem já fumou maconha. A bem da verdade, nunca fui grande maconheiro, se é que o adjetivo casa com o substantivo. Nos tempos da faculdade, especialmente em Brasília, era comum fumar um baseado em casa ou no campus. A depender do fumo, a conversa podia ficar animada e as risadas que se seguiam podiam dar lugar a sacadas que na hora nos pareciam geniais, mas que não duravam. Eu nunca comprei maconha por não saber lidar com os canais de fornecimento nem conhecê-los. Mas não faltava quem trouxesse. 

Para mim maconha era um excelente afrodisíaco. As mulheres ficavam mais atraentes e mais soltas. Daí que as relações íntimas se tornavam intensas e relaxadas, numa época em que remanescia de outros tempos a última geração das mulheres sexualmente bloqueadas. Se a cocaína sempre foi considerada uma droga "broxante", na medida em que o usuário perdia sua pulsão sexual primária –- é assim mesmo que se chama ereção em linguagem chique? –, a maconha era muito mais sensual, e dava o tom de um clima em tudo propício para que os corpos se explorassem e se descobrissem. 

E de repente, vem esse debate bizantino sobre a legitimidade do uso dito recreativo da maconha. Pois bem, sei por experiência que o uso regular da maconha faz bastante mal. Tinha amigos que morreram por força dos hábitos ligados a um tabagismo contumaz e anestesiante, tendo perdido interesse pela vida. Conheço dois que hoje têm problemas mentais e que certamente os desenvolveram pela associação da maconha a outras drogas de fato fortes. Mas daí a se armar uma tempestade dessa magnitude, pois bem, só se justifica por conta das somas que devem estar por trás disso. 

Seja como for, recomendo a esses legisladores que deem uma passada num supermercado popular e vejam a profusão de cachaças oferecidas a menos de R$ 5 a garrafa. Por R$ 10, quatro adolescentes no Brasil podem se embriagar por 24 horas e fazer toda sorte de loucura imaginável. Por outro lado, cansei de sair de reuniões em Nova York, passar no hotel, tirar a gravata e descer para o Soho para fumar um baseado em Washington Square para relaxar os nervos. Que mal há nisso? E pensar que candidatos a presidente se preocupam em dizer que "fumaram, mas não tragaram" é o cúmulo. 

Como vivo muito ocupado, já não tenho estado de espirito para um baseado. Para piorar, a asma que se instaurou depois dos 50 anos, inibiu bastante esse prazer. Se os legisladores querem mesmo ajudar o Brasil, deixem de frescura e taxem as bebidas destiladas com 300% sobre o imposto que já pagam. Aí talvez as coisas comecem a melhorar. O Brasil é não somente um país viciado no debate inútil, na hipocrisia e no cabotinismo, como também um lugar dado a dar uma roupagem moralista a questiúnculas de há muito superadas em outros países. 

O Brasil é uma Tanzânia metida a Dinamarca. 


comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: