Uma década mais tarde

Que ninguém coloque diante de mim um mapa do mar Egeu que uma ponta de angústia logo vai me afligir

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Ilha de Simi no mar Egeu

Na terça-feira pensava em como estava há dez anos. À espera do frio que varreu a Avenida Paulista depois das duas da tarde, pedi um conhaque para fechar o almoço e fiz uma longa caminhada entre a região do Paraíso e a da Consolação. Manquitolando de leve, depois que uma imprudente bateu com o carrinho de bagagem do aeroporto em meu tendão esquerdo, voltei até 2009-2010, uma época muito peculiar de minha vida. Isso porque recém entrara nos 50 anos, e tinha decidido terminantemente que nada, absolutamente nada, deveria passar na frente da saúde como prioridade. E que isso seria só o começo para uma guinada radical, que me levaria mais perto do que eu considerava a felicidade. 

Lembro que comecei com um check up minucioso que nada detectou de grave, apenas que tinha um rim maior do que o outro, e constatou uma asma brônquica leve. Isso feito, perdi uns 12 quilos em cinco meses, o que me deixou em boa forma física, confiante para encarar talvez a parte mais desafiante do projeto, sobre o qual falarei logo mais. No front político, o Brasil fazia gol após gol, ao final do segundo mandato de Lula, mas meu foco não estava no país, senão em mim. Tinha dinheiro para me sustentar por um bom tempo, planos para atacar uma carreira literária e, sobretudo, estava com o coração desimpedido, uma situação quase inédita desde os 15 anos de vida. Isso queria dizer que não teria rupturas a administrar.

O projeto era sair do Brasil em 2010. Doaria os livros, desativaria os endereços de São Paulo e Recife, reduziria a quase nada o guarda-roupa e administraria as finanças de forma a poder viver com uns 1500 euros ao mês. Minha base seria a ilha de Simi (foto), no mar Egeu da Grécia. Lá chegando, alugaria uma casinha minúscula, daquelas que vira no verão de 2003. Compraria um método Assimil para estudar a língua em casa e a praticaria nas tavernas nas noites calmas de inverno, quando aquela parte do mundo fica esquecida. Acordaria cedo, faria 10 quilômetros de marcha acelerada e depois nadaria em mar aberto. Escreveria por um par de horas, atualizaria a correspondência e iria ler a maior parte do tempo. 

Tudo ia muito bem. Eu até informara a proprietária do apartamento da Faria Lima sobre meus planos e vi um ar sonhador na expressão dela. "Faz muito bem, seu Fernando. Vejo que seus olhos brilham ao falar do projeto. Isso sim é o que importa."  

Mas então a vida se encarregou de tomar outro rumo porque, na verdade, passei a fazer concessões aos fatos novos. A campanha presidencial de 2010 abriu uma brecha para sepultarmos o populismo e colocar o Brasil nos eixos. Ainda era tempo, embora os efeitos da crise de 2008 castigassem o mundo. Nesse contexto, tendo passado a ver o país com mais esperança, logo surgiu uma namorada nova e algo me disse que era uma relação que chegara para ficar. Como, de resto, aconteceu com todas as relações amorosas que tive. Mas agora já não me sentia tão desimpedido quanto antes. Ora, quem pauta sua vida por parâmetros tão voláteis quanto o amor e a política, tem mesmo tudo para perder o eixo da missão. Foi o que aconteceu. 

Assim sendo, se ia ficar mais um pouco no Brasil, precisava me manter. Para tanto, era importante deixar a literatura de lado e trabalhar. Afinal, a vida nos Jardins, em São Paulo, é por certo mais cara do que a vida em Simi, nos confins do Mediterrâneo. De mais, viajar é um moto contínuo e também pede dinheiro. O trabalho gerou deveres e esses são indissociáveis de comprometimento. Com a vida mais burguesa dos lares estabelecidos, comecei a ganhar peso e a negligenciar a saúde. Voltei a dormir tarde, a comer em excesso e deixei de lado as caminhadas que fazia até duas vezes ao dia onde quer que estivesse. A dinâmica das missões me obrigou a ter uma vida on-line que até então desconhecia nessa escala.  

Concluo e resumo. Não estou arrependido de nada, mas seria desonesto comigo mesmo não proceder a um balanço. Que ninguém coloque diante de mim um mapa do mar Egeu que uma ponta de angústia logo vai me afligir. Afinal, fiz certo? Deveria ter fechado os olhos para o Brasil e suas tentações e passado direto? Como estaria se tivesse ido curtir meu exílio dourado? Teria escrito uma obra de que me orgulhasse? E como estaria fisicamente, depois de uma rotina de braçadas diárias no mar? Se estou feliz com a vida que tenho, não será que poderia estar ainda mais com a outra? São perguntas para as quais jamais terei respostas. Assim é a vida. Maravilhosa, sem dúvida, mas implacável à hora de apresentar a fatura.


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Aristides Pokrywiecki

Uma década mais tarde “bateu fundo”! Quase fico tentado a fazer minhas as suas palavras! Embora não tenha levado uma vida tão plena quanto a sua e, nem de longe, desenvolvido o talento para escrever, vinha acalentando o sonho de, algum dia, viver à beira-mar, em alguma pequena e tranquila vila de pescadores, em algum canto desse mundo, onde o tempo passa mais devagar. E quem sabe, me arriscar a escrever um livro! Alguma inspiração para isso veio da leitura de O Velho e o mar, de Ernest Hemingway, publicado no mesmo ano em que eu nasci. Comecei a trabalhar ainda menino, quando havia certeza de que o Brasil seria o País do Futuro. Estudei, me formei em economia e em administração, aprendi idiomas (inglês e alemão), me tornei executivo financeiro de empresas. Morei nos Estados Unidos (Houston) e realizei trabalhos temporários na Alemanha, Holanda, Finlândia e no Paraguai. Uma longa jornada. Fiquei viúvo no ano que completei 60 de idade. Tecnicamente, estava desimpedido para botar o sonho em prática. Mas, a crise de 2008, além de nove longos anos de dispendiosa convalescença da esposa, haviam cobrado o seu preço e exaurido boa parte dos recursos que serviriam para realizar o velho sonho. Para recompor as finanças, fiz a opção de “me reinventar” e assumir novo trabalho, agora com planos de “pendurar as chuteiras” quando chegar aos 70, ou seja, em 2022. Ainda mantendo um respeitoso paralelo com o seu texto, também não tenho arrependimentos. Bem, quase não. Quando vejo alguma notícia, ou filme, que tem por cenário os Estados Unidos ou a Europa, é inevitável questionar o fato de ter retornado à Pátria amada, idolatrada, que parece cada dia mais longe de se tornar o País do futuro, do qual se falava quando eu era menino. E o sonho de viver numa bucólica vila de pescadores? Bem, se não houver uma boa e positiva guinada de rota, corre o risco de acabar como a história de Santiago, o pescador do livro de Hemingway, que, com muita luta, pesca um marlim de quase 700 quilos. Mas, ao chegar em terra, constata que o peixe foi devorado no trajeto, restando somente a carcaça!

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