Aço e montadoras trazem notícias ruins às siderúrgicas

Setor pede desvalorização do câmbio

Por Infomoney

Aço e montadoras trazem notícias ruins às siderúrgicas

Desde que a China começou a pisar no freio, o mercado já não é mais o mesmo para mineradoras e siderúrgicas. A redução na demanda para o maior consumidor de minério e aço jogou os preços internacionais para níveis muito baixos, deixando as empresas – que já não surfavam em mares tranquilos – com calças curtas diante da retração da economia brasileira. Se não bastasse, a semana tem apresentado uma enxurrada de novas más notícias, provocando ainda mais desvalorização às ações do setor siderúrgico.

Segundo os dados divulgados pelo Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda) e  pelo Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Produtos Siderúrgicos (Sindisider), o mês de junho registrou queda de 6,5% na compra de aço em comparação com maio, com volume total de 236,6 mil toneladas . Em relação ao mesmo mês do ano passado, as perdas foram ainda maiores: 21,1%. Até junho, as compras registraram retração de 15,1% em relação ao primeiro semestre de 2014. Já no caso das vendas de aços planos, junho fechou com retração de 4% em comparação com maio, atingindo a marca de 258,5 mil toneladas. Em comparação com o mesmo mês do ano passado, a queda foi de 19,5%.

Para além dos resultados ruins para compra e venda, a grande preocupação se concentra também sobre os estoques, que se mantêm bastante altos – o que contribui para a queda dos preços. O fato também implica em reduções no ritmo de produção das empresas, que tentam se adaptar à demanda fraca. Ainda de acordo com dados do Inda, os estoques de junho registraram queda de 2% em relação ao mês anterior, atingindo a marca de 1.055,4 mil toneladas, patamar ainda considerado bastante elevado pelos especialistas. Segundo a entidade, o estoque do insumo usado na produção de bens como veículos somou 1,05 milhão de toneladas ao final do primeiro semestre, volume equivalente a 4,1 meses de vendas.

Com números tão negativos, o presidente-executivo do Inda, Carlos Loureiro, já estuda rever projeções para a queda anual estimada em cerca de 15%. O momento é tão ruim que pode superar os problemas da crise de 2009. “Estamos caindo e não sabemos quando vamos levantar a cara. Vai ser muito difícil não termos um segundo semestre pior que o de 2009”, afirmou Loureiro. Segundo ele, uma série de companhias já trabalha com margens bastante reduzidas, o que já levou algumas a entrarem em recuperação judicial. Outras já reduziram a escala de trabalho para quatro dias na semana. O objetivo é evitar novas demissões e promover um novo enxugamento na folha de pagamentos.

Na avaliação de Loureiro, o clima político também afeta o atual momento enfrentado pelas siderúrgicas. O executivo diz que as dificuldades de colocar de pé o ajuste fiscal pesa e que um eventual impeachment da presidente Dilma Rousseff seria muito ruim para a estabilidade do país, que passaria a correr ainda mais riscos da perda do grau de investimento. 

Desvalorização cambial
Outro a refazer projeções negativas em meio ao contexto de excesso de capacidade mundial do aço e de fraca atividade da indústria no Brasil foi o Instituto Aço Brasil (IABr). A entidade revisou sua estimativa de produção de aço bruto em 2015 para uma queda de 3,4% em relação ao ano passado (32,8 milhões de toneladas). A expectativa anterior apontava para um crescimento de 6,4% nos volumes produzidos. "Estamos vivendo a maior crise de nossa história", revelou Marco Polo de Mello Lopes, presidente executivo da entidade.

O presidente da CSN, Benjamin Steinbruch, defende que medidas urgentes sejam adotadas para reverter a situação vivida pelo país. "No Brasil temos uma tremenda urgência. Estamos muito atrasados na implementação (de medidas)", cobrou.  Representantes do setor pedem ao governo uma desvalorização do real ante o dólar para reduzir o nível de importações e estimular exportações da commodity produzida no país, uma ação antidumping contra concorrência desleal praticada pela China e, eventualmente, um imposto específico sobre importação de produtos siderúrgicos.

"Precisaremos de um tempo para reorganizar o mercado interno e a saída imediata seria a exportação. E não só para o setor o siderúrgico, mas para todos os segmentos", disse. Segundo Steinbruch, estimular as exportações seria a medida mais "fácil e rápida" a ser implementada. "Precisamos de um esforço conjunto para que consigamos exportar mais", declarou. Os dados do IABr do primeiro semestre deste ano já mostram que as siderúrgicas já viraram a chave em relação a destino de parte de sua produção. De janeiro a junho, as exportações do setor cresceram quase 50% e relação ao observado um ano antes.

Segundo o presidente do conselho diretor do Instituto Aço Brasil (IABr) e presidente da ArcelorMittal Brasil, Benjamin Mario Baptista, as margens de rentabilidade da exportação são mais baixas do que as vendas internas, mas essa é a saída para não fechar as unidades fabris. No caso da Arcelor, o executivo contou que a companhia está mantendo a utilização plena de sua capacidade e que isso tem ajudado, juntamente com a taxa de câmbio e menor preço das matérias-primas, para que a companhia consiga colocar metade de sua produção de aços planos, de 7 milhões de toneladas, no mercado externo.

Virada de página
O pessimismo dos números das entidades só não é acompanhado de perto pelo discurso oficial da representante das montadoras, Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores). Em coletiva a jornalistas, o presidente Luiz Moan Júnior reconheceu que o setor automotivo passa por uma “crise momentânea”, mas ressaltou que os investimentos no Brasil seguirão acontecendo “sem dúvidas”.

Segundo Moan Júnior, não houve cancelamento de investimentos. O setor, diz, segue aplicando recursos pela modernização das fábricas, mesmo em tempos de conjuntura menos favorável. Para o presidente da Anfavea, é fundamental manter produtividade mesmo em tempos de crise e primar pela proteção dos empregos. Segundo dados divulgados pela própria associação em 6 de julho, 36,9 mil empregados do setor estão em lay off – isto é, com seus contratos de trabalho temporariamente suspensos.



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