Antuérpia: um benchmark de gestão portuária

Como um dos principais portos da Europa planejou seu futuro

Por Ricardo Sproesser*

Antuérpia: um benchmark de gestão portuária

O Porto de Antuérpia (foto) é o maior porto da Bélgica e o segundo maior da Europa. É formado por três instituições: Autoridade Portuária de Antuérpia (APA), responsável pela gestão da infraestrutura, concessões de áreas portuárias, acessos terrestres e aquaviários; Antwerp Port Training Center (APEC), seu braço educacional que oferece seminários a profissionais das áreas portuária e logística; e Port of Antwerp International (PAI), que presta serviços de consultoria e eventualmente realiza investimentos no exterior.

Situado a 80 quilômetros do Mar do Norte, é acessível através do Rio Scheldt (ou Rio Escalda, em português), cujas condições de profundidade e largura são bastante favoráveis, permitindo aos maiores navios de contêineres hoje escalando a Europa (acima de 20.000 TEU de capacidade) operarem regularmente no Porto de Antuérpia. Essa navegação de 80 quilômetros até o interior de Europa reduz a distância entre o porto e os principais centros europeus.

A APA adota o modelo consagrado mundialmente como landlord, tendo recentemente evoluído a uma administração com enfoque facilitador pró-ativo, que favorece a maior fluidez nos processos alfandegários, boa conectividade com os centros consumidores e geradores de cargas, atração de investimentos para a zona portuária, branding e promoção do porto, porto inteligente (smart port), dentre outros conceitos modernos de gestão.

Dentre essas características, a conectividade com o interior da Europa e áreas não contíguas regionais (Reino Unido e Rússia, por exemplo) ou de longo curso mostra-se de grande importância para garantir a competitividade do Porto de Antuérpia na atração de cargas e para atender ao alto nível de eficiência e serviços demandados pelos usuários, sejam eles os responsáveis pelas mercadorias movimentadas, armadores, prestadores de serviços logísticos etc.

A migração para modais de transporte mais eficientes que o rodoviário se configura como um grande desafio para a APA, que pretende reduzir, até 2030, a participação das rodovias dos atuais 60% para 40%, elevando para os mesmos 60% o uso de ferrovias e hidrovias, combinadamente. Como o uso de ferrovias e hidrovias é ecologicamente mais correto, essa mudança de matriz modal é pré-condição para um futuro mais sustentável.

A estratégia da APA para desenvolvimento da conectividade está estruturada em quatro pilares: 

1) melhorar e expandir a infraestrutura dos modais de transporte de e para o porto (marítimo, rodo, ferro, hidro e dutoviário);

A última dragagem de aprofundamento do Rio Scheldt em 2010 permite que navios de contêineres acima de 21.000 TEU ou graneleiros até 160.000 DWT de capacidade escalem regularmente o Porto de Antuérpia.

Os terminais de contêineres possuem capacidade de movimentação de aproximadamente 15 milhões de TEU anuais e guindastes com alcance de 25 contêineres em largura no convés dos navios. A produtividade média é a maior de Europa, com 40 movimentos por hora, por guindaste. Diversas instalações para contêineres vazios também se encontram disponíveis.

Há 16 terminais independentes de armazenagem de granel líquido, representando a maior concentração de tancagem em aço inox do mundo.

Para granéis sólidos, há 12 terminais especializados.

Já para carga geral convencional, são 15 terminais dedicados a cargas não conteinerizadas, refrigeradas, de projeto etc, bem como guindastes de última geração, incluindo flutuantes de até 800 toneladas de capacidade.

Um intercâmbio digital de informações entre todas as partes envolvidas na cadeia de suprimentos proporciona fluidez nas operações portuárias de chegada das embarcações e movimentação de carga em navios. 

Constante diálogo com os armadores de longo curso, de cabotagem e embarcadores facilita o estabelecimento de serviços marítimos de e para o Porto de Antuérpia.

Branding e promoção da ampla oferta de serviços marítimos de e para o Porto de Antuérpia.

2) agir politicamente quando a responsabilidade for de terceiros;

Por exemplo, aumentar o gabarito das pontes sobre rios da região, permitindo barcaças fluviais com quatro contêineres de alto; promover a dragagem do Rio Scheldt, tanto em território belga quanto holandês (cerca de 30 quilômetros antes da desembocadura no Mar do Norte são parte do território da Holanda); avaliar impacto da implementação de pedágios em rodovias; processos alfandegários, fomentando equilíbrio entre a necessidade de segurança e alta fluidez na movimentação de cargas pelo porto.

3) aumentar a eficiência dos procedimentos operacionais, contribuindo para um rápido e transparente fluxo de cargas transportadas entre o porto e centros europeus;

Na navegação fluvial implementou-se o sistema INSTREAM, em que colaboração e inovação tornaram o modal hidroviário seguro, rápido e confiável para destinos no interior. Nele estão compreendidos a Coordenação e Sistema Automático de Identificação de Barcaças; Monitoramento e Planejamento Central de Barcaças; Sistema de Tráfego de Barcaças; e Serviço Premium de Barcaças, que oferecerá conexão em horários fixos e regulares interligando os seis terminais de contêineres dentro do porto, viabilizando a consolidação de pequenos volumes de contêineres com o objetivo de aumentar o volume consignado por escala e reduzir o número de escalas por terminal dentro do porto (em desenvolvimento).

No transporte rodoviário, implantação do projeto Avantida, que visa a reutilização de contêineres evitando movimentos de unidades vazias pelo porto; gestão dinâmica do tráfego, com informações em tempo real em painéis informativos nas rodovias, direcionando os motoristas à melhor rota dentro do porto; operação de entrega e retirada de contêineres ao longo de 24h nos dias úteis, minimizando concentrações em horários de pico. 

No modal ferroviário (em desenvolvimento): para terminais de contêineres, um sistema para consolidar pequenos volumes para garantir quantidades mínimas em cada terminal portuário; para terminais de carga geral convencional (isto é, não conteinerizada), um processo mais eficiente de escalas em todos as unidades operacionais; aumento na troca de informações entre os entes envolvidos.  Nos procedimentos alfandegários, há iniciativass visando estimular o uso de transporte ferro e hidroviário: Expansão de Gate, possibilitando o adiamento de declaração pela Aduana Belga a um terminal ou armazém alfandegado remoto próximo ao destino final na Europa; trânsito de contêineres para o interior da Europa sem emissão de documento físico em papel, resultando em economia de tempo no transporte.  

4) facilitar novos serviços por meio de cooperação;

Aumento de frequência de serviços de barcaças fluviais e ferrovias: implementação de serviço neutro pelo departamento do Porto de Antuérpia de Soluções Intermodais, que facilita novos e mais frequentes serviços de e para centros econômicos estratégicos da Europa. Após identificação de volumes potenciais e passíveis de migração para modal ferro ou hidroviário, o Porto de Antuérpia conecta os embarcadores aos provedores interessados de serviços, para que viabilizem novas conexões ou ampliação de frequência de transporte. Regiões alvo atualmente são: para barcaça fluvial, Sul da Holanda e Norte da França; para ferrovia, Sudeste da Alemanha, Centro e Leste da Europa, incluindo Áustria, Hungria, Polônia, Eslováquia e República Checa.

*Representante do Porto da Antuérpia no Brasil.


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