Uma história inspiradora

Don Eyles, o matemático desempregado sem quem não teríamos chegado à lua, continua sendo um homem de muito valor

Por Fernando Dourado Filho, de Comporta (Portugal)

Don Eyles, o matemático desempregado sem quem não teríamos chegado à lua, continua sendo um homem de muito valor

A essa altura da vida, já não sei dizer se sou um pessimista moderado ou um otimista incurável. Isso porque tem horas que me sinto cético com respeito à sorte, ao futuro da humanidade e aos frutos do progresso da civilização. Em outras tantas, talvez pelo muito que tenha recebido da vida, só posso acreditar que o bem prevalece e que no final, tudo acabará bem. Ou, pelo menos, que todos seremos agraciados com momentos de plenitude que só compete a nós mesmos valorizar e eternizar em nossos corações. A condição básica para que isso aconteça é que tenhamos feito um bom dever de casa e que as fundações estejam bem assentadas. Então, mesmo no cenário mais sombrio, surgirá a luz e a realização. Mas chega de blablablá. Falemos pois de Don Eyles (foto), o homem cuja história me inspirou hoje. 

De quem?, você se perguntará. Eu mesmo fiz a mesma pergunta ontem, ao ler num jornal português a história deste matemático de 76 anos, rosto quadrado, cabelos brancos, olhos verdes e a pele dos muito alvos que tomaram sol além da medida. Pois bem, quando tinha 23 anos, Don era um jovem matemático desempregado, recém formado pela universidade de Boston. Disposto a encarar qualquer emprego que aparecesse, deparou por acaso com um anúncio de recrutamento para um certo Intrumentation Lab, pertencente ao prestigioso MIT. Aceito, confiou-se àquele rapaz que gostava de quebra-cabeças e charadas, escrever o código para os voos do módulo lunar do programa Apollo. Foi assim que Don e um certo Allan Klump criaram o software de orientação à navegação da alunagem – que permanece válido até hoje.

Dito de outra forma, quando, três anos mais tarde, há exatamente meio século, os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin deram aqueles primeiros saltos na lua, eternizando um momento de que a maioria dos que já eram nascidos está bem lembrada, um jovem monitorava cada ação a partir de um laboratório no MIT. A um comando seu, Houston abortaria a missão, especialmente na hipótese de falta de força propulsora para que o módulo se acoplasse à nave-mãe, o que teria condenado os astronautas à morte. Don reduziu à matemática mais pura os transbordamentos de ego de Buzz Aldrin, que por pouco não colocou em risco a missão por querer a todo custo passar adiante de Neil Armstrong na hora pisar no satélite. Ter sido apenas o segundo foi motivo de amargura para o resto de seus dias. 

Don Eyles, o matemático desempregado sem quem não teríamos chegado à lua naquela data, continua sendo um homem de muito valor. Na entrevista que deu ao "Público", disse: "A exploração é um dos traços mais nobres da condição humana. Ao fazê-lo, e sem nenhum motivo especial, estamos a tentar aprender tudo aquilo que podemos sobre o que nos rodeia. E isso torna-nos melhores. E acredito no dia – que eventualmente chegará – em que iremos conhecer todo o Sistema Solar." Então, arrematou: "O que gostaria era que se pensasse na exploração espacial de um ponto de vista mais idealista, que estivéssemos menos interessados no ganho imediato, especialmente no ganho econômico, mas nas questões mais nobres dos seres humanos." Poderia subscrever cada linha do que disse meu novo amigo. 

Nessas horas, sempre imagino o que teria sido feito de Don e da humanidade se, por acaso, ele tivesse encontrado um emprego no dia anterior como analista de investimento ou mesmo como representante comercial de uma marca de sabão em pó para um distrito de Boston – já que ele mesmo admite que estava aceitando tudo. É por essa e outras razões que acordo sempre pensando que o dia que começa – ou a semana, o mês, o ano ou a idade – pode nos reservar surpresas extraordinárias, sempre e quando tenhamos nos preparado para recebê-las. Defensor dos voos tripulados, meu novo herói arremata. "Mesmo que o foguete consiga fazer uma aterrissagem segura, a grande vantagem de ter humanos a bordo é a exploração que pode ser feita quando se chega ao destino." Estou com ele. 

Portanto, fique atento à sua volta. Viaje, navegue e explore. 


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