O abismo emocional entre gregos e nórdicos

Usando clichês, Fernando Dourado Filho explica tamanhas diferenças

Por Fernando Dourado Filho*

O abismo emocional entre gregos e nórdicos

Nunca desde o 11 de setembro, recebi tantos e-mails a respeito de um único tema como tem acontecido por ocasião das tratativas que envolvem gregos e irmãos do condomínio europeu. É por essa razão que resolvi trazer aos leitores do portal AMANHÃ um pouco do apanhado que levo para a sala de aula, fruto de muitos anos de treinamento para habilitar executivos e estudantes a negociar com os povos do Mediterrâneo.

Didaticamente, portanto, corroborando o espírito dessa contribuição, podemos dizer que os gregos são, no geral, do universo multiativo, o que lembra um pouco o jeito típico brasileiro. Vamos lá, um pouco de clichê ajuda a visualizar e caracterizá-los:

- São péssimos ouvintes. A todo instante, interrompem o interlocutor;
- São teatrais, como os mediterrâneos. Curtem o som da própria voz e abusam da linguagem não verbal;
- Fazem mais de uma coisa ao mesmo tempo, logo perdem foco facilmente;
- Têm noção circular do tempo, ou seja, o que não foi feito hoje, pode ser feito depois, o que acaba com o senso de urgência;
- Têm baixa noção de planejamento e esposam o fatalismo dos países do Levante, na linha de "o que tiver que ser, será";
- Acham que o passado glorioso lhes dá o status de credores da humanidade (um pouco como egípcios, persas, romanos);
- Louvam a  esperteza em detrimento da disciplina;
- Nunca vão direto ao ponto;
- Adoram sofismar: o que vale mais, o homem ou o sistema financeiro? Qual é o preço de ver um ancião rendido numa calçada? A tradição humanista faz do "outro" um algoz;
- São adoráveis, bons de festa e bouzouki [instrumento de cordas semelhante a um bandolim] e, na intimidade, confessam que o problema é interno e que são ingovernáveis;
- A verdade não existe, ela é a versão do que convém a ambas as partes.

Quem está do outro lado? Ingleses e alemães, por exemplo. Se gregos são multiativos, eles são os chamados ativo-lineares.

- Não fazem nada sem planejamento, até piquenique em família precisa de meses de preparação;
- São objetivos e vão direto ao ponto sem dar asas ao "small talk";
- Jamais interrompem o interlocutor quando ele está falando e odeiam que façam isso com eles;
- Guardam as emoções para si: a raiva, a alegria, o desconforto;
- Jamais prometem o que não podem cumprir;
- Detestam proximidade física com estranhos e não usam os braços para falar;
- O tempo é regido pela ordem - são monotarefa e fazem uma coisa depois da outra, sem pular temas ou etapas;
- Acreditam que o futuro depende do que fizermos bem hoje. O ontem ficou para trás e não entra em pauta;
- Por charmoso que seja o outro lado, não perdoam a falta com a palavra empenhada;  
- Existe uma só verdade ("Wahrheit") e é dever das partes achá-la pois só ela salvará. 

Países como a França e a Espanha ficam a meio caminho. Daí contemporizarem e botar panos mornos. O principal opositor da Grécia, o que mais se indigna, não por coincidência, é o representante finlandês. Nem ativo-lineares nem multiativos, eles são reativos. O que é isso?

- Jamais falam sem muita reflexão;
- Dizem apenas uma parte pequena do que pensam – basta visualizarmos um iceberg e ver o tamanho da camada submersa;
- Abominam linguagem não-verbal;
- Acreditam em obstinação, trabalho disciplinado e "endurance";
- Tudo é planejado e são monotarefa;
- Mergulham em longos silêncios de reflexão, o que só força o grego a dizer mais do mesmo;
- Promessa é dívida – isso vem da tradição nórdica dos criadores de rena;
- Acreditam na criação progressiva de vínculos emocionais entre as pessoas;
- Vão da timidez introspectiva à fúria.

Isso traduz, primeiro, o sentimento da rua. E, ademais, é inevitável que o negociador de cúpula seja, ele também, um pouco assim. Pois um dia ele foi da rua.

*Fernando Dourado Filho é colunista da revista AMANHÃ.


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