Um judeu na Presidência do Brasil

Alcolumbre é um sefardita, cujos ancestrais chegaram do Marrocos há pouco mais de um século

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Davi Alcolumbre, presidente do Senado

Qualquer hora dessas nos próximos meses, Bolsonaro vai viajar novamente à Ásia, digamos assim. E Mourão, o Vice, terá de ir a um enterro nos Estados Unidos ou na Europa, representando o Brasil – digamos que para as exéquias de Carter ou de Chirac. Caberá então a Presidência a Rodrigo Maia. Ora, tendo ele já sentado na cadeira tão cobiçada, imagino que possa telefonar para o amigo Davi Alcolumbre, Presidente do Senado, e dizer: "Estou pensando em ir ao Chile nos meus dias de interinidade para visitar parentes. Prepare-se para ser o número 1 da República. Avise aos seus que compareçam ao beija-mão no Planalto. Ou vá você até eles, como já fez Paes de Andrade ao visitar Mombaça, no Ceará, em 1989. Suerte".

Ora, Brasília é isso. Um enorme clube de amigos onde esse tipo de gentileza permeia a praxe dos condôminos que vivem às margens do Paranoá. No caso de Davi Samuel Alcolumbre Tobelem, confesso que vou gostar dessa coreografia. Isso porque se o Brasil vem cravando retrocessos em diversos segmentos do convívio social, pelo menos poderemos apor a nosso currículo que já tivemos à frente da Presidência um judeu. Já pensaram se ele resolve promover um "shabat" no Palácio do Planalto? Não seria emocionante ver ali os representantes de comunidades de todo o país, de quipá e "talit", a rezar por nós? Davi receberia telefonemas de Natanyahu e na floresta amazônica seria dia de festa para os Azulay, os Benzecry e os Bensimon.      

Afinal, Alcolumbre é um sefardita, cujos ancestrais chegaram do Marrocos há pouco mais de um século. Sem jamais ter tido grande apreço pelos livros, abandonou a faculdade e deu sequência aos negócios da família, que aportou à região ainda no Ciclo da Borracha. Longe de ser membro da "nova política", mesmo porque já esteve enredado com Sarney – cujas digitais permeiam tudo o que há entre São Luiz e Paramaribo –, seu grande mérito foi defenestrar Renan Calheiros, que dava como favas contadas uma reeleição. Ardiloso, na terça-feira (25) Davi engrossou o coro dos que defendem o Parlamento (onde nunca foi grande referência) ao dizer que Moro estaria preso ou cassado se pertencesse à instituição. "Chutzpah" ele já mostrou que tem. 

Quando despachar no Planalto, por um dia que seja, a despeito de seus méritos e deméritos (quem não os tem?), teremos um modesto marco a celebrar numa paisagem humana tão pouco rarefeita quanto a que sopesa sobre o cenário candango. E, convenhamos, que ninguém lhe tire os créditos por costurar, juntamente com Rodrigo Maia, a agenda mais crítica da atualidade, que é a votação da Reforma da Previdência. Se der tudo certo, aliás, ele será credor do reconhecimento de todos. Vamos lá, Davi, acerte uma pedrada no meio da testa de Golias. Você descende de um povo de profetas e visionários. Seja mais um guerreiro pertinaz e faça jus ao nome. Em tempo: continue sem beber álcool, é melhor. E se puder, evite o WhatsApp.  


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