Eu não curto futebol feminino

Diminuir o espaço entre as quatro linhas pode dar um pouco de emoção a essa modalidade tão anódina

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Seleção dos EUA na Copa Feminina de Futebol 2019

Chegamos ontem ao restaurante para o almoço domingueiro. Éramos talvez dez pessoas e o ambiente amplo comportava telas gigantes, estrategicamente colocadas para o televisionamento de jogos de futebol. Nesse mesmo local, assisti ano passado a eletrizantes partidas da Croácia e, se tudo correr bem, espero ver ali mesmo alguns jogos da próxima Copa. O futebol tem dessas coisas. Aproxima desconhecidos e desencadeia emoções que ficam vívidas quando compartilhadas.

Só que no domingo, o que rolava nas telas era futebol feminino. Observando o recinto, acho que nem 10% das pessoas se dispunham a assistir à partida. A bem da verdade, eu nem sei quem estava em campo. "Alguém paga para ver esses jogos?", perguntei com inocência. Mesmo porque, podia ser que eles estivessem enquadrados numa categoria incentivada, como forma de promover o congraçamento dos povos. "Não, é pago sim", rebateu meu amigo. "Mas entendo bem sua pergunta. Na verdade, é um troço muito aborrecido de ver". 

De todas as eventuais jogadoras do mundo, eu só conheço a alagoana Marta, de quem já ouvi uma entrevista. "Ah, ela cobrou um pênalti, converteu o gol e fez um apelo mundial para equiparação das remunerações entre homens e mulheres no esporte. Pena que no final perdemos o jogo", disse minha amiga. Mas como atender a uma reivindicação dessa? O futebol masculino mexe com a emoção de bilhões. Quem em sã consciência pode ver graça em 22 mulheres perdidas nas dimensões sem fim de um enorme campo de futebol?

Sim, talvez aqui esteja a chave do enigma. Diminuir o espaço entre as quatro linhas pode dar um pouco de emoção a essa modalidade tão anódina que, pelo que me consta, só faz algum sucesso nos Estados Unidos, justamente onde pouco se sabe de futebol. Sem fôlego para ocupar os quadrantes do gramado que lhes fica imenso, vê-las jogar é como assistir às "peladas" de crianças na hora do recreio. Correm dez para a bola, sem a mais vaga noção de tática e, no geral, são desprovidas de qualquer habilidade individual, na falta da coletiva. 

É curioso que essa defasagem se torne aberrante no futebol. Isso porque o tênis feminino é jogado no mais alto nível. O vôlei é exuberante, e em nada perde em emoção com relação ao dos rapazes. E, como é sabido, o mesmo vale para o basquete. A natação, a esgrima e o hipismo são tanto delas quanto deles e me extasio com a graça das ginastas, a cereja do bolo das diversas modalidades de atletismo. Mas com o futebol, que me desculpe a quase conterrânea Marta, as coisas mudam de figura. 

Vê-se daí que é uma questão de adaptar regras e tentar adequar os desafios da modalidade a uma anatomia mais frágil, talvez inapta para correr por 90 minutos e fazê-lo com alguma arte. Quando disse o acima a meus convidados, uma delas rebateu: não é machismo seu? "Eu até acho que sou um pouco machista, não nego. São coisas de geração. Mas nesse caso, desafio-a a acompanhar 5 minutos que seja desse baba (ela é baiana). Se você não bocejar, me penitencio por minha intolerância". Um minuto depois, ela já tirara os olhos da tela. 

Sorte às nossas atletas e que elas voltem cobertas de ouro, fortuna e glória. Mas nunca gastaria um cêntimo para vê-las jogar. Que me desculpem, mas é uma modalidade muito chata.


comentarios




Edilene

Eu também não sou fã, mas pode crer que este seu artigo vai levar muitas lambadas...

Luciana

Concordo com o colunista. Claro, não vão faltar militantes querendo obrigar todo mundo a "valorizar" a modalidade, como se as pessoas não tivessem direito de ver o que lhes dá na telha.

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