À namorada que não terei

Meu tempo expirou e por decurso de prazo, perdemos o bonde e não vou atrasá-la com chegadas improváveis

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Ultimamente me pego cada vez mais pensando em você. No Brasil ou no mundo, repasso antes de dormir as poucas cenas que vivemos até hoje. Aquela do dia em que conversamos sem parar por um par de horas, quando eu apenas intuía que você não estava desimpedida para que fossemos além da curiosidade. Até as ocasiões recentes, passados tantos anos do primeiro encontro em que, pouco a pouco, percebo que você vem me conduzindo para sua órbita, já que para trás ficaram os impedimentos. Toda essa delicada coreografia de atracagem, você faz à sua maneira. Sem excessos verbais, sem teatralidade, sem manipulação, com ternura (como gosto disso) e muita, muita elegância. Quando muito, já vi escapar uma lágrima furtiva, um gesto riscado no ar de que "está tudo bem", pois, afinal, quem já não viveu capítulos amargos nessa vida? E quem não se empolga diante da abertura de outros mais promissores? Você sabe bem do que eu falo. 

A verdade é que, devagarzinho, me acostumo a receber por telefone uma palavra de atenção, uma dica de saúde, uma recomendação "en passant", e tudo isso exala um frescor tal que só me ocorre constatar o óbvio. Você, minha querida, vive o pleno verão de uma vida cujo auge ainda se aproxima. É como se florescesse num campo da Provence bem à época que vivemos hoje, ou seja, em plena primeira quinzena de junho. A comparação é boa porque, convenhamos, sequer o verão oficial chegou e, no seu caso, a esperam pelo menos cem, cento e vinte dias de luz, de chuvas refrescantes que vão deixar os campos dignos de Van Gogh, e as flores (como você) úmidas de orvalho. Assim está sua vida. Ao final disso, resplandescente de beleza, você viverá o começo do outono – se tudo correr bem. E aqui estamos falando de um prazo dilatado, de pelo menos mais uns dez anos.

Já eu, não. Tivesse os tais dez anos a menos de que fala a estrofe da música com que fecharei essa nossa conversa, e se o outono para mim estivesse apenas começando, e não flertando com o final, não hesitaria em descer para latitudes cálidas e pegar carona em seu exuberante verão. E então, obedecendo ás deliciosas trocas, eu a conduziria pela mão ao andar outonal, embalado pelo companheirismo e ternura (olha ela aqui de novo). Com você, viveria o que pudesse da juventude e das belezas da vida. De mim, você ouviria histórias ambientadas onde quer que imagine, e, ao contá-las, eu a estaria aclimatando à pouca luz das latitudes frias, onde você se sentiria cada vez melhor. Quando para mim chegasse o inverno e a luz escura descesse de vez, já teríamos tido um convívio pleno e maduro, e uma imensa bolha de afeto nos uniria no final, a ponto de deixá-la saudosa do homem que pude ser para você. E então, você seguiria seu caminho. 

Mas isso não vai acontecer.   

Por que digo isso? Derrotismo? Pode ser, podemos chamar de várias formas. Impor minha candidatura, ou ceder a seus encantos (como eu adoraria), é talvez um pouco de mais. Sei que num primeiro momento, você não vai querer me entender. Vai dizer que sente-se bem quando estamos juntos, que as comportas de nossa relação se destravam dia após dia e, como todo mundo que vive o verão, você vai dizer que tudo é possível, que a diferença de idade é de somenos e que nada há que um pouco de boa-vontade e de mudança de hábitos não mude. Eu me conheço. Vou assentir, vou dizer que você tem razão e é possível até que avancemos um pouco além desse ponto mágico onde nos encontramos. Eu juro que hoje, mais do que em qualquer outra época, daria tudo para me sentir como foi a praxe de outros começos: propositivo, otimista, entusiasta, transbordante, apaixonado e sem limites para sonhar. Você merece o pacote completo. Mas meu tempo expirou. Por decurso de prazo, perdemos o bonde e não vou atrasá-la com chegadas improváveis.    

Como definir esse desfecho, sem sucumbir ao clichê? Não sei, daí admitir que aceitá-la seria incorrer em propaganda enganosa. Ademais, me recuso a acreditar que você não vá encontrar, sem muito esforço, alguém que esteja a viver seu setembro dourado, já que os cabelos grisalhos não a assustam. No meu caso, aceite, coloquei os dois pés no novembro da vida. Veja bem: como te levar com ânimo para subir as ladeiras da Alhambra? Onde achar a paciência para ir ao Topkapi, mostrar as esmeraldas que combinam com seu colorido? Não será que haveria melhor companhia para as noites de jazz em Chicago e os passeios à vegetação densa da Cidade do Cabo? Você e sua família – sim, temos que levar em conta que ela existe e é importante para você –, merecem alguém de repertório mais arejado. Não o de um cara que já viu quase tudo.  

Mas como e quando vou ter coragem de te dizer isso, olho no olho, se tê-la em minha vida vem sendo tão bom? Como será o dia seguinte a esse comunicado, em que depois de ter listado mil impedimentos, mal vou conseguir disfarçar a dor por ter tido que renunciar por antecipação a um capítulo que me empolgaria tanto viver? Está sendo duro. Sequer me consolará ouvir você dizer, nesse sotaque que é tão seu, que você fica grata pela minha honestidade (embora ela só agrave as coisas), que vai se acostumar à ideia e que continua achando que nossas chances eram grandes, não fosse minha teimosia. Mas uma hora, o bom senso prevalecerá. E nos convenceremos de que temos ambos a ganhar se ficarmos apenas bons amigos. Quando eu voltar para casa, cabisbaixo nessa noite de descerramento de cortinas, onde quer que nos caiba viver a renúncia, vou lembrar da música de Reggiani, cujo túmulo visito quando estou em Montparnasse. Antes era só uma estrofe inspirada, hoje é uma sentença inelutável. 

"Il suffirait de presque rien, peut-être dix années de moins, pour que je dise je t´aime / Que je te prenne par la main pour t´emmener à Saint-Germain t´ofrfir un autre café crème..." Seja feliz. Estarei torcendo ardentemente. E que em 12 de junho de 2020 você esteja em muito boa companhia. 


comentarios




Renata Pscheidt Becker

Que texto mais lindo e delicado, além de superpoético. Parabéns!

Regina Torres

Maravilhoso texto. Poético. Fino. Pura doçura de ler. Um texto ou uma verídica constatação? Parabéns, Fernando.

Diana

Um amor tardio......que não vingou!

Rogério de Souza

Poucas vezes li textos que me tocaram tanto. Este me fez cair na real.

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