Comung: quando a comunidade resolve

As instituições promovem fortes transformações sociais

José Carlos Carles de Souza*

UPF, em Passo Fundo

O sentimento de pertencimento a uma determinada comunidade dá segurança ao sujeito, a ponto de torná-lo, efetivamente, cidadão daquele meio, identificado com a sua cultura e com os seus valores sociais. Além disso, aguça as suas percepções quanto às necessidades do espaço onde vive e eleva o nível do seu comprometimento com as causas que lhe dizem respeito e nas quais acredita. 

Quando se observa os resultados alcançados pelo Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas (Comung), rememora-se o mesmo sentimento de envolvimento comunitário referido antes, expressado por meio de ações protagonizadas pelos milhares de professores e alunos, matriculados nas 15 instituições de ensino superior (IES) que lhe compõem (Unifra, IPA, Univates, PUCRS, UCPel, Urcamp, UCS, Unicruz,  UPF, Unilasalle, Unisc, Unisinos, Unijuí e URI), presentes em todas as regiões do Rio Grande do Sul. Essas IES, além de oferecerem educação de qualidade aos seus estudantes, incentivam o engajamento e a participação em atividades de cunho social. Criado em 1996, com o objetivo de viabilizar um processo integrativo entre as instituições que resultasse no fortalecimento individual e no consequente favorecimento da comunidade universitária sul-rio-grandense e da sociedade gaúcha, o Comung, desde então, vem cumprindo a sua missão e consolidando as ações das Instituições Comunitárias de Ensino Superior (ICES), visando dar concretude ao modelo comunitário de ensino.

A característica fundamental dessas instituições de ensino está baseada na sua origem, na identificação e nas práticas comunitárias, nos termos da Lei nº 12.881/2013. Também conhecidas como instituições de ensino superior “públicas não estatais”, as ICES estabelecem profundos vínculos com a sua área de influência geográfica e desempenham papel proativo na realidade social, política, econômica, cultural e histórica das regiões onde atuam. As suas ações interagem com a sociedade e promovem transformações que contribuem para o desenvolvimento com maior equidade e justiça social. Agrega-se à característica comunitária, também, o fato de que as ICES primam pela gestão democrática e participativa e não atuam com fins lucrativos, de modo que todo o resultado positivo auferido é reinvestido na própria instituição.

Além disso, sempre atuando de forma conjunta e integrando as instituições que o compõem, o Comung busca, por meio de convênios e políticas públicas, incentivos à formação acadêmica, à promoção de atividades artísticas e culturais, à formação de professores e ao desenvolvimento de ações de inovação e empreendedorismo, entre outros.

A importância do Comung e, mais especificamente, de cada uma das instituições de ensino superior, pode ser mensurada por diferentes indicadores: o expressivo número de estudantes que mantém em seus cursos, ou a destacada competência profissional dos egressos que formou ao longo dos últimos 50 anos; a diversidade de cursos de graduação que disponibiliza aos acadêmicos; a qualidade de programas de pós-graduação stricto sensu, em nível de mestrado, doutorado e estágio pós-doutoral; a quantidade de cursos de especialização e MBAs que oferece a cada semestre; a elevada capacidade de geração de pesquisa acadêmica e científica; o número de estudantes matriculados nos cursos de graduação e pós-graduação; e a inovação tecnológica que desenvolve em seus oito parques científicos, que contam com a participação do setor empresarial.

O Comung constitui, em razão disso, a maior rede de ensino superior em atividade no estado e, para bem dimensionar e compreender a relevância das ICES do Comung no cenário educacional brasileiro, basta observar que o país possui quase 8 milhões de alunos matriculados no ensino superior. Desses, aproximadamente 6 milhões estão na rede privada e em torno de 2 milhões na rede pública estatal. O Rio Grande do Sul tem, em números aproximados, 480 mil universitários matriculados, dos quais em torno de 80% na rede privada e comunitária. Assim, excluída a quantidade de matrículas da rede pública estatal, o Consórcio contabiliza a metade do total de matrículas no ensino superior no Rio Grande do Sul, com mais de 190 mil alunos distribuídos em mais de 1,4 mil cursos de graduação, centenas de cursos de pós-graduação, 135 programas de mestrado e 71 programas de doutorado nas várias áreas do conhecimento. Se agregarmos a esses dados o número de professores – em torno de 9 mil, dos quais 90% são mestres e/ou doutores – e o fato de que as ICES têm mais de 11 mil funcionários, é possível mensurar o seu potencial.

Diante desse contexto, o planejamento do crescimento econômico e social do Rio Grande do Sul não pode prescindir de significativos investimentos na área da ciência e tecnologia, visando à qualificação e à inovação de seus serviços e produtos, que são colocados à disposição da coletividade. Isso se constitui em ação estratégica para a evolução social e econômica de cada comunidade. Nesse sentido, as ICES do Comung têm contribuído, em cada região, com ações pontuais, principalmente com a apresentação de projetos desenvolvidos nos seus parques científicos e tecnológicos – Tecnopuc, Tecnosinos, UPF Parque, Techpark Feevale, Tecnounisc, Tecnoucs, Tecnovates e Tecnouri –, que cumprem papel estratégico, sendo responsáveis por inúmeros projetos tecnológicos devidamente identificados com o vetor produtivo das suas comunidades.

Os resultados já alcançados são expressivos e permitem projetar outro tanto, seja no que se refere à diversidade dos projetos científicos, que implicam o desenvolvimento de inovações tecnológicas, ou à ampliação do número de empresas de base tecnológica vinculadas aos parques. Isso tudo impacta positivamente a geração de emprego e renda da população e, por óbvio, impulsiona o crescimento regional. 

O conglomerado das instituições do Comung tem capacidade para gerar amplo programa de ciência e tecnologia para o estado e projeta a constituição de ambientes de inovação e de empreendedorismo, utilizando uma estrutura composta, além dos oito parques tecnológicos, de 12 incubadoras de empresas, nove incubadoras sociais, dez agências de inovação e tecnologia e mais de 3,4 mil laboratórios de ensino, pesquisa e extensão. Portanto, por meio de ações convergentes, com maior interação entre as ICES e o setor público – tanto no âmbito municipal quanto no estadual –, e com a participação da área empresarial regional, será possível ampliar, exponencialmente, a inovação e o aprimoramento de produtos e serviços que geram transformações socioeconômicas na comunidade.

Para aproveitar o potencial científico e tecnológico apresentado, faz-se necessário, primeiro, conceber uma política desenvolvimentista local e regional que priorize o vetor econômico de cada comunidade e que seja capaz de aglutinar os gaúchos em torno de um ideal coletivo. Depois, contando com o comprometimento de todos, por se tratar de proposta inclusiva, é preciso assegurar e controlar investimentos permanentes (públicos e privados) em todos os níveis de educação, uma vez que isso valoriza e empodera o cidadão, e conduz, inexoravelmente, ao desenvolvimento econômico e social. Impõe-se, então, o aprimoramento das relações de cooperação entre Estado, empresário e instituições de ensino que atuam junto às comunidades, especialmente as ICES que detêm conhecimento e capacidade para liderar o movimento econômico e social de revitalização do Rio Grande do Sul pelo viés da educação.

*Ex-presidente do Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas (Comung).


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