O VAR e a unanimidade

Ora, não se trata aqui de mandar o homem a Marte nem de transplantar um coração – e sim de validar ou não um reles gol

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Uso do VAR em partidas de futebol da CBF

Dia desses ouvi um grupo de comentaristas que debatia no rádio sobre o VAR, o sistema de câmeras de apoio à arbitragem. Pelo que sei, ele vem funcionando em algumas ligas desde a Copa da Rússia. No Brasil, vez por outra um juiz de futebol desenha no ar o formato de uma televisão e, com expressão mediúnica, estaca no meio do gramado à espera de mensagens do além, a que se seguirá o gesto de continuar o jogo, a teatralidade de puxar um cartão ou o alvoroço de marcar um pênalti. No convescote radiofônico, contudo, outro aspecto me chamou a atenção, mais do que o exame do mérito do penduricalho. Foi a falta de pensamento original. "A tecnologia chegou para ficar", dizia um. "Sem dúvida, mas isso não exime os auxiliares de passar por um rigoroso teste de idoneidade para arbitrar, ainda que indiretamente", ecoava outro. Que saco. Depois, o que danado vem a ser um teste de idoneidade? Na hipótese de existir, não poderíamos começar pela capital federal? 

Falo aqui de minha irritação com a unanimidade em geral. Primeiro porque acho impossível que ninguém ali julgue o VAR um preciosismo extremado, caro para campeonatos cujas contas mal fecham. Segundo porque cada comentarista parafraseava o antecessor, mudando só o adjetivo. "O colega afirmou que o VAR é importante. Vou além: é inevitável". Que sabujice. Em terceiro porque seria dever das federações e dos clubes garantir conforto e segurança aos torcedores, mais do que rigor científico nas marcações. Ora, não se trata aqui de mandar o homem a Marte nem de transplantar um coração – e sim de validar ou não um reles gol. Um descuido ou uma falha não deveriam ser o fim do mundo. Mas, na verdade, ninguém ousa assumir a voz discordante. Talvez se o primeiro dos radialistas tivesse abraçado uma posição contrária, os demais moldariam suas intervenções de conformidade.  

Certo é que a atitude das manadas digitais adentra o espaço dos estúdios de rádio, que sempre foram um santuário de irreverência e conexão popular. Ricardo Boechat era um jornalista que ousava dizer o que sentia. Em São Paulo, qualquer taxista dirá da falta que sente de suas diatribes ao lado de José Simão. Sem querer agradar a todo custo, ali havia irreverência e o chamado pensamento instigador, alternativo à sinalização consensual da boiada. Se os ventríloquos não ousaram dizer, digo eu: colocar câmaras em Uauá – com todo respeito à briosa cidade do sertão baiano –, é inverter prioridades. Ora, que o VAR fique para as Copas e super Ligas. Não será com lona de circo de seda que palhaços ficarão mais engraçados e acrobatas mais ousados. Pelo contrário.


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