Maracatu atômico

Ele acha que se tivéssemos caças em ação e um submarino nuclear operativo seríamos temidos pela Rússia ou pela China

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Caça Gripen em voo

Diz-se que o Deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que também é presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, tomou gosto pela política internacional. Vê-se. Como estamos ainda bem lembrados, foi ele que se fez presente à reunião reservada do pai Presidente com Donald Trump na Casa Branca. Dispenso-me, aliás, de imaginar o calibre dessa interlocução transcendente, mas certo é que ela aconteceu ao arrepio da liturgia protocolar que, por alguma razão, existe. Salvo engano (isso porque tem coisas que nos forçamos a esquecer por conta da chamada vergonha alheia, aquela que sentimos por derrapadas de terceiros), foi também da lavra de Sua Excelência a ideia de declarar na televisão chilena que era quase impossível encontrar uma saída pacífica para a crise venezuelana, insinuação essa que foi interpretada de várias formas, salvo por uma única que poupasse o Brasil do ridículo e do vexaminoso.  

Tais incursões lhe têm valido o apelido de "Chanceler informal", e é sabido que a sombra que projeta sobre Ernesto Araújo – o histriônico Chanceler de direito –, valeu a este justificados chiliques nas antessalas do poder ao ver-se sumariamente excluído de convescotes presidenciais, a despeito de se alardear o mentor único da destrambelhada carta de navegação a que estamos obedecendo para tatear o cenário internacional. Afinal, se a capacidade de formulação de ambos – Chanceler e Deputado – parece se equivaler em tom e conteúdo, uma lei da física vaticina que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Assim sendo, como os modelos tendem a se repetir alternadamente em latitudes de subdesenvolvimento crônico, pode-se dizer que a nova dupla espelha com sinal invertido a dobradinha inaugurada por Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia, esse último investido de prerrogativas de plenipotenciário junto ao chamado Eixo Bolivariano, ponta de lança da pilhagem e do narcotráfico.

Nesse contexto, há um estranho traço a unir as gestões. Isso porque ambas as duplas se viram atraídas em dado momento pela chamada agenda atômica, pelas pautas militares de alta octanagem. No passado, imbuídos de uma visão messiânica de um Brasil dopado pelas anfetaminas do populismo tentador, convidamo-nos para mediar a crise iraniana – contexto no qual estávamos tão legitimados para atuar quanto o cão está para apartar leões enfurecidos. Se algum dia nos coube um protagonismo nas pautas beligerantes, aliás, isso muito se deve ao ex-diretor da OPQ – organização laureada com o Nobel da Paz em 2013 –, o honrado Embaixador José Maurício Bustami, desconvidado por ordem do atual Chanceler para ser o paraninfo dos formandos do Rio Branco em 2019, por conta de ter adotado à época de seu mandato posições destemidas que afrontaram o atual assessor especial de Trump, John Bolton, o que evidenciou a sabujice que grassa no Itamaraty. A nossos heróis de fato, o opróbrio. 

Mas eis que agora o Deputado Bolsonaro, não querendo perder protagonismo vis-à-vis seus irmãos – um às voltas com o que parecem ser tenebrosas transações, e o outro intoxicado pelos sortilégios do Twitter, onde pisoteia a língua portuguesa despudoradamente todo dia –, esboçou um simulacro de nova ordem mundial, na sonhada hipótese de o Brasil vir a ter armas nucleares. Em linha com um raciocínio digno de adolescentes que trocaram a escola pelos chamados filmes de ação, o Brasil seria levado "mais a sério" se tivesse um "poder bélico maior". Parece cristalino que é a mesma lógica que leva o clã a pensar que a posse de armas em casa tem poder dissuasivo sobre a atuação de bandidos de escol. No cenário projetado pelo parlamentar, se tivéssemos caças em ação e um submarino nuclear operativo, não somente o ditador-traficante da Venezuela nos respeitaria mais, como seríamos temidos "pela Rússia ou pela China". 

Tivesse eu aprendido alguma coisa em quase meio século de andanças pelo mundo, talvez não tivesse tanta dificuldade de visualizar tanto Putin quanto Xi Jiping a marcar reuniões emergenciais para discutir a ameaça "verde-amarela", representada por nossa solitária belonave a perscrutar os taludes árticos ao largo de Murmansk ou por voos rasantes de nossos caças Gripen (foto) sobre os arranha-céus de Xangai. Diante da perplexidade por certo bem humorada da assistência de alunos da Escola Superior de Guerra em vista a Brasília, Eduardo Bolsonaro riscou na ponta do florete a imagem de marca da família: "O terrorista, o criminoso, o ditador sanguinário só respeitam uma coisa: a força." Dizendo-se afinal limitado pelas peias do politicamente correto, aqueceu o espírito da audiência para a iminência de uma guerra na Venezuela. "Se isso daí evoluir para um quadro pior, que é o que ninguém deseja, quem vai entrar em ação serão principalmente os senhores [militares]".  

Sei não. Na falta de alento para lidar com tanto primarismo, recorri à única referência de qualidade que a pauta me inspira. Embora pouco militar e nada hegemônica, não me furtei a ouvir sob o chuveiro na manhã desta quarta-feira, na voz de Gilberto Gil, a única referência digna de crédito sobre nosso poder atômico: "O bico do beija-flor, beija a flor, beija a flor/ E toda a fauna a flora grita de amor/ Quem segura o porta-estandarte, tem arte, tem arte / E aqui passa com raça eletrônico, maracatu atômico". Nessa pisada, vai faltar Lexotan na praça.  


comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: