O Brasil precisa de mais Ásia e menos Mercosul

Presidente da Farsul aponta caminhos para o agronegócio nacional

Por Gedeão Silveira Pereira*

Gedeão Pereira, presidente da Farsul

O sucesso na agropecuária, assim como nas demais áreas produtivas, depende de gestão. O planejamento a curto e longo prazos é necessário como em qualquer outra área empresarial. Entretanto, algumas características do setor acabam por criar obstáculos que para os outros segmentos da economia são inexistentes ou de menor impacto. 

Para quem olha de fora, a questão climática parece ser o grande desafio dos produtores. Por se tratar de uma atividade a céu aberto, eles estão sujeitos às mais variadas influências do clima. Excesso ou falta de chuvas são diretamente responsáveis pelo sucesso ou não das lavouras. Muito desses efeitos são amenizados com a aplicação de tecnologias, o que acaba por refletir em um aumento de produtividade frequente e consistente.

Mas outras barreiras são impostas e precisamos ter a capacidade de ultrapassá-las. É o caso do Mercosul. A Farsul vem chamando a atenção para as assimetrias existentes no acordo entre países da América do Sul. A forma como foram construídas as relações no Bloco acaba por achatar três de nossas principais cadeias agrícolas: arroz, trigo e leite. Nelas, a lucratividade é baixa e o endividamento alto, pois a política de tributação aplicada é voraz, retirando sua competitividade em relação aos nossos “hermanos”. 

Quando olhamos para o mercado interno, enfrentamos outro desafio. Atualmente, o Brasil possui 14 milhões de desempregados e, apesar de acreditarmos na recuperação econômica do país, sabemos que não será um processo rápido. Assim, nos defrontamos com a queda no consumo, consequência inevitável do atual cenário. A regra natural em situações como essa é de procurar novos mercados consumidores para a produção excedente. Por anos apostamos nossas fichas na Europa como o grande destino de nossos produtos. Porém, após ciclos intermináveis de negociações e a utilização de barreiras sanitárias como ferramentas de bloqueio para garantir uma reserva de mercado, é necessário ampliar a visão. 

E ao olhar mais para o mundo, eis que de repente nos encontramos com clientes em 200 países e esse número vem crescendo. Precisamos dar atenção às nações asiáticas que concentram boa parte da população mundial e tem sua capacidade de produção estrangulada. É a eles que nossos olhos precisam voltar-se, em especial à China. Somente em 2018, o agronegócio gaúcho exportou US$ 12,1 bilhões, conforme dados disponíveis nos Relatórios de Comércio Exterior do Agronegócio do Rio Grande do Sul, divulgado mensalmente pelo Sistema Farsul. Desse total, a China respondeu sozinha por 47% das vendas. Para ter-se uma ideia, o nosso segundo maior comprador são os Estados Unidos, com 3,7%.

Temos capacidade de ampliar nossa produção por meio da tecnologia embarcada nos maquinários. Nossa produtividade por hectare ainda não chegou ao limite, o que gera boas perspectivas. Entretanto, não se pode apenas pensar em produzir mais: é preciso fazê-lo com qualidade. Encontraremos os mais variados mercados com as mais diversas exigências e para isso precisamos estar preparados com o que melhor podemos oferecer para atender as mais diversificadas demandas. E esse pensamento não deve existir apenas em relação à produção agrícola, mas também para a proteína animal. Seja para exportações de gado em pé ou carne industrializada, a questão sanitária deve estar presente em todos os elos da cadeia. Devemos ser sinônimo de segurança alimentar em todos os pontos do planeta.

Portanto, os obstáculos apresentados são muitos, é verdade, mas as oportunidades também. E um cenário desafiador não é novidade para o produtor rural. O papel protagonista que ele conquistou na economia brasileira atual foi construído ao longo dos anos por meio de muito trabalho, investimentos e coragem. 

*Presidente do Sistema Farsul.


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