Ana Furtado ou o amor à vida

Emocionei-me com os momentos públicos de sua fragilidade explicável, imaginando quanto se sentia acossada pela angústia

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Não basta ser bela. Não basta ser feliz no casamento. Não basta ter dinheiro. Importante, certas horas, é captar a dimensão efêmera de todas as dádivas acima e lutar com força pela vida. Isso feito, vibrar a cada despertar, com cada tacada de golfe, sob o esplendor das cerejeiras do Japão e no convívio puro e simples dos familiares. Digo tudo isso pensando na apresentadora Ana Furtado, da Globo, que está em vias de superar um câncer agressivo, felizmente detectado a tempo de reagir ao tratamento. 

Gosto dela. Gosto de sua forma bem humorada de comunicar, do lado coquete de uma mulher que exsuda feminilidade e nunca quis parecer ser minimamente diferente do que é. Emocionei-me com os momentos públicos de sua fragilidade explicável, imaginando o quanto ela não se sentia acossada pela angústia em seus espaços privados. Ouvi o desespero resignado de quem explicava o método adotado para reduzir a queda de cabelo, submetendo o crânio a temperaturas próximas a zero.

Ontem dei uma olhada em sua conta Twitter para ver a quantas ia. Emoldurada pelas belezas de Kyoto, um dos lugares mais abençoados do planeta nessa época do ano, vibrei com sua alegria como se fosse a de alguém da família. De mais, acredito piamente que ela vai ter sempre um pensamento para as centenas de mulheres que se irmanaram com ela nessa cruzada, e nelas vai pensar quando acender incenso no templo da Nara, destino que recomendo vivamente já que ela está ali no Kansai.           

Ter amor à vida não é pouca coisa. Ana Furtado, que eu não conheço pessoalmente, é apenas um contraponto público e charmoso a inúmeros casos que estes sim conheci de uma superação em tudo parecida à dela. Foram dores mais anônimas, dúvidas discretas, encruzilhadas feitas de coragem silenciosa, de disciplina e pragmatismo. Imagino o quanto essa determinação seja mais rara em homens na mesma faixa, talvez propensos a achar que não farão grande falta e que já viveram sua cota de prazeres. 

Por fim, gosto de ver o aceno de volta que faz a vida a todos que cultuam a beleza, dela fazendo uma profissão de fé. Não chego aos extremos de minha mãe, para quem a vida de pessoas belas é mais valiosa do que a daquelas que são desleixadas. Mas não há dúvida que as boas energias que Ana Furtado emite – ao trajar-se lindamente, preservar seus atributos femininos e se esparramar em agradecimentos à vida –, hão de lhe ter valido essa nova chance que, espero eu, se perpetue por décadas. 


Ana Furtado e essa estranha mania de ter fé na vida. Vá fundo, estou com você. 



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