A razão de existir a Sala do Investidor

Integrar esferas de governo torna menos complexa a burocracia

Por Marcus Coester*

Reunião na Sala do Investidor

O Rio Grande do Sul detém um dos sistemas produtivos industriais mais complexos e diversificados do Brasil, possivelmente atrás apenas do estado de São Paulo. Também é verdade que muitos setores da indústria gaúcha, por conta de seu pioneirismo no século passado ou ainda antes, já enfrentam a ameaça da obsolescência. Outro aspecto fundamental a considerar em uma síntese de desenvolvimento econômico, tecnológico e industrial são os chamados setores da nova economia e do conhecimento, onde cabe destacar áreas como nanotecnologia, tecnologia ambiental, ciências da vida, medicina avançada, alimentos funcionais, mobilidade elétrica e autônoma, e os diversos campos da computação. Há inclusive inúmeras possibilidades e combinações que se apresentam – como a Indústria 4.0 – para o notável encontro da informática com o mundo das máquinas. 

Com uma base produtiva tradicional muito bem-estruturada, a indústria do futuro é certamente o desafio maior para a sociedade gaúcha: estabelecer as bases educacionais, industriais, econômicas e de qualidade de vida que queremos para daqui a 30 anos. Há que se estar atento às lições da história, onde, em não raros casos, segmentos inteiros foram devastados por tecnologias emergentes e as consequentes mudanças de hábitos. Como uma regra geral do mundo da competição, é sempre bom lembrar que quem não tem estratégia acaba sendo parte da estratégia de alguém. Assim como a Indústria 4.0 resultou deste merge, deste encontro tecnológico entre o mundo digital e o mundo das máquinas, o estado detém elementos para outros merges extraordinários como o que ocorre entre o agronegócio, a indústria de máquinas e equipamentos e o setor de alimentos premium, abrindo caminho para produtos de alto valor agregado no mercado internacional. Esse é apenas um exemplo da combinação de vocações históricas com novas tecnologias, que demonstram a potencialidade da indústria gaúcha em nível mundial, com seus diversos clusters e parques tecnológicos.

Como elemento de fundo, a educação e o estímulo ao empreendedorismo são a vertente da renovação da indústria e da própria sociedade. No mundo moderno não há como dissociar qualidade de vida, crescimento econômico, tecnologia e conhecimento. Esta simbiose é o que atrai talentos, gera riqueza e qualidade de vida nas regiões mais admiradas do mundo. Neste ponto, os parques tecnológico gaúchos, criados ao longo últimos 15 ou 20 anos, são a principal semente desta almejada indústria do futuro. Atualmente existem cerca de 20 parques estabelecidos no estado, com destaque para o Tecnopuc, Tecnosinos, Feevale Techpark, Tecnovates e Ulbratech, que abrigam algumas centenas de empresas e são hoje referência internacional.

Não obstante o crescimento estrutural e orgânico do setor produtivo, a atração de investimentos estratégicos ou a expansão de empresas já estabelecidas é sempre um importante instrumento de política industrial. Especialmente nos casos de investimentos de maior porte e disputa com outras unidades federativas, é usual que o governo do estado organize algum tipo de pacote de incentivos. Ainda que não busque incentivos diretos, dificilmente um empreendedor escapa de algum nível de interação com a intrincada estrutura da administração estadual. Some-se a isto o fato de que existem missões potencialmente conflitantes nas várias áreas de responsabilidade constitucional dos Estados, caso das áreas de Desenvolvimento Econômico, Fazenda e Meio Ambiente. É justamente neste ponto que entra a Sala do Investidor, criada pelo governo do Estado em 2011 e sucessivamente aprimorada. Mais que um espaço físico, a Sala do Investidor é um conceito de atendimento a empreendedores, organizado de forma integrada com as diferentes áreas do governo e outros organismos privados, municipais ou federais quando necessário. A vantagem imediata desse serviço é a eliminação ou redução da entropia e perda de tempo causada pela complexidade da estrutura governamental. 

A partir de diretrizes estabelecidas pelo governador ou pelos secretários estaduais, é possível estabelecer um bom grau de alinhamento entre as áreas de interesse na administração, agilizando o processo de relacionamento com o investidor. A Sala do Investidor também gera um procedimento formal e documentado para cada projeto, sempre com a designação de um gerente responsável. Este responde pelas articulações internas e externas ao governo, formação de grupos de trabalho, troca de informações e formulação das propostas. Dependendo do projeto, a atuação do gestor e de sua equipe pode tornar-se bastante complexa e muitas vezes decisiva, envolvendo legislação de incentivos fiscais, aplicação de normas e procedimentos, levantamento de dados econômicos, atuação de áreas distintas como infraestrutura e educação, financiamento pelos bancos estaduais, suprimento de insumos e sua estrutura tributária, licenciamento ambiental e interlocução com municípios e instâncias do governo federal. Apesar de todas as virtudes da indústria gaúcha, da reconhecida qualidade humana e das consistentes políticas de estimulo a empreendimentos, um desafio que persiste é o relativo isolamento e a baixa visibilidade internacional do Rio Grande do Sul. Cabe aos povos determinar o seu futuro, e ainda há muito trabalho para que este recanto da América do Sul se reinvente como uma região de excelência e prosperidade de nível mundial.

*Empresário, sócio do Grupo Coester e Conselheiro Independente. Dirigente empresarial na FIERGS, ABIMAQ, ABINEE e Câmara de Comércio Brasil Alemanha. Foi o Diretor Presidente da Agência Gaúcha de Desenvolvimento - AGDI entre 2011 e 2013.


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