Mulher tem medo de mouse?

Ambientes heterogêneos costumam gerar melhores resultados

Por Letícia Polydoro

Com tanto potencial de mercado e o entendimento de que nós, mulheres, somos totalmente aptas a atuar em tecnologia, só nos resta especular o porquê de sermos em tão menor número em relação aos homens

O ano era 2009. Eu estava atrasada para um evento de tecnologia. Entrei no auditório e sentei na primeira cadeira que vi próxima à entrada, discretamente, para não atrapalhar a palestra que já havia iniciado. Após me acomodar, olhei em volta com atenção e percebi que cerca de 90% do público era feminino. Desconfiei. Perguntei em voz baixa para uma das participantes do que se tratava a palestra. Ela me disse que aquele evento era para profissionais de Recursos Humanos, pois o de tecnologia estava acontecendo na sala ao lado. Quando entrei na sala referida, a esmagadora maioria do público era formada por homens. Tive então certeza de que estava no local correto.

Segundo dados da Softex de 2018, o setor de Tecnologia da Informação (TI) gera mais de 1,3 milhão de empregos no Brasil, com um déficit de 48 milhões de profissionais que, se não suprido, poderá ocasionar perdas de receitas de cerca de R$ 115 bilhões em dois anos. Outro estudo da Econodata revela que, das cinco empresas que mais cresceram em 2018 no mundo, as quatro primeiras são de tecnologia. Mesmo disponibilizando tanta oportunidade de trabalho bem remunerado, o IBGE mostra que somente 20% dos profissionais do setor de TI são mulheres. Nos EUA não é muito diferente: segundo o último censo, apenas 25% das vagas em TI são ocupadas por elas. Talvez muitos não saibam, mas o primeiro algoritmo da história foi escrito por uma mulher: Ada Augusta King, Condessa de Lovelace, filha única do poeta Lord Byron. Ada era matemática e, em 1842, muito antes de existirem computadores, concebeu uma sequência de cálculos capaz de ser processada por uma máquina analítica. Ou seja, segundo os especialistas, o primeiro programador da humanidade, na verdade, foi uma mulher.

Com tanto potencial de mercado e o entendimento de que nós, mulheres, somos totalmente aptas a atuar em tecnologia, só nos resta especular o porquê de sermos em tão menor número em relação aos homens. Preconceito, desinteresse ou simples desconhecimento da área seriam algumas das hipóteses possíveis. Deveríamos engajar mais mulheres na TI. Sugiro isso não por fazer defesa de gênero – e sim porque ambientes heterogêneos costumam gerar melhores resultados. A tecnologia é um meio pelo qual se entrega algum valor à sociedade sob forma de produto ou serviço. Entender a complexidade de cada ecossistema onde ela está inserida significa garantir maior competitividade. E, para tal, a diversidade dentro de um time de TI é fundamental. Projetaremos melhores soluções se conhecermos, se não todas, grande parte das variáveis para qual o nosso produto/serviço se destina. Precisamos de mais multidisciplinaridade e diversidade, pois o consumidor dos novos tempos é múltiplo e diverso.

Dez anos se passaram desde aquele episódio que relatei no início, mas o cenário pouco mudou. Vejo que mais mulheres estão entrando na área de TI, mas os números ainda são tímidos. Aliás, esses dias fui em outro evento profissional. Olhei atentamente para sala e encontrei um número maior de mulheres do que naquela época, o que me deixou momentaneamente satisfeita. Observei novamente e percebi que havia apenas um homem negro na sala. Veio então uma nova reflexão: ainda temos muito a fazer como sociedade. Espero que a gente não precise aguardar tanto tempo para colher os frutos.


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