Leave your kids alone

Ou: um novo serviço, a infantocracia e os adultos-crianças

Por André D´Angelo

Baby Click

Há produtos e serviços que revelam mais sobre uma sociedade do que qualquer pesquisa antropológica ou Censo do IBGE. É o caso do Baby Click, que permite aos pais gravar e compartilhar as imagens da ecografia de seu rebento.

Para além da piada inevitável que encerra - como ninguém sabe distinguir um feto de outro, basta à empresa ter a imagem de meia dúzia de ecografias quaisquer para convencer os futuros pais de que estes são os seus bebês -, o serviço representa o ápice da idealização da maternidade/paternidade e do "show do eu" em que se transformou a sociedade atual. E, a meu ver, ajuda a explicar a infantocracia que volta e meia se observa em algumas famílias por aí e com a qual escolas e até universidades têm de lidar.

O psicanalista Contardo Calligaris já escreveu: "(...) meus pais nos beijavam e abraçavam. Mesmo assim, não éramos o centro da vida deles, enquanto nossos filhos são facilmente o centro da nossa. Para a geração de meus avós e de meus pais, a vida dos adultos não devia ser decidida em função do interesse das crianças, até porque o principal interesse das crianças era sua transformação em adulto (...)" (Folha de S. Paulo, 10/09/2012).

Difícil imaginar que aqueles que se dispõem a mostrar imagens de seu filho-enquanto-feto não passem a fazer dele o centro de suas vidas. Provavelmente, guardarão o ultrassom para inserir em um vídeo de homenagem a(o) pimpolho(a) quando completar 15 anos, numa festa de arromba.

Mais difícil ainda imaginar que esses mesmos pais conseguirão suportar ver seus filhos frustrados durante a vida escolar e universitária. A esse respeito, aliás, o mercado de escolas privadas no Brasil caminha perigosamente para que o atendimento ao cliente suplante a educação. Famílias brasileiras de classe média alta que imigram para Portugal, por exemplo, descobrem rapidinho que, por lá, "(...) não adianta a criança chamar atenção para ser paparicada. Ou se enquadra ou tem que sair. (...) 'Não adianta procurar o atendimento VIP que a gente tem em São Paulo. (...) Na realidade europeia as escolas têm suas regras internas e flexibilizam muito menos do que no Brasil. Os brasileiros estranham. (...) O alto valor das mensalidades nas escolas particulares brasileiras faz com que elas satisfaçam demais os desejos dos pais" (Valor Econômico, 18/01/19).

Mas o fenômeno não é apenas brasileiro, faça-se justiça. Nos Estados Unidos, a tradicional Universidade de Stanford percebeu que vinha recebendo um contingente expressivo de alunos que uma ex-reitora batizou de "adultos-crianças" - incapazes "de tomar as próprias decisões" e de "lidar com contratempos e frustrações" (Veja, 05/08/2015). 

Uma possível explicação para esse fenômeno vem de um livro recém-lançado nos Estados Unidos. Segundo se depreende da leitura de apresentações e resenhas da obra, a postura superprotetora dos pais é reflexo da crescente desigualdade econômica e social enfrentada por lá e em tantos outros países, como o Brasil. Dispostos a fazer com que seus filhos se deem bem na disputa por melhores educação e oportunidades de emprego, os genitores estariam não só preenchendo a agenda das crianças com um monte de atividades, como já sabemos há tempos, mas também as superprotegendo – afinal, evitar derrotas aqui e agora é imperativo para forjar uma personalidade vencedora.

Ao fim e ao cabo, há que se fazer justiça: o ultrassom da Baby Click é capaz de revelar muito mais do que aparenta à primeira vista...                  


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