Pânico no avião

Em todos os casos consegui segurá-lo à base de um exercício respiratório e meio Lexotan

Por Fernando Dourado Filho, de Milão (Itália)

Passageiro em pânico no avião

As portas do avião tinham sido fechadas há pouco mais de um minuto quando um homem alto desafivelou o cinto, ficou de pé no fundo da cabine e bradou em desespero: "Não quero mais ir, preciso desembarcar, não estou bem". Foi um alvoroço. Como o piloto já iniciara o "pull back" só restou à tripulação tranquilizá-lo para que recobrasse um mínimo de calma e serenidade. Então, pacificado pelos bons efeitos de um Rivotril, ele voltou a seu lugar, riu um pouco da própria desdita e, até o fim do voo, foi alvo da atenção até bastante carinhosa dos tripulantes. Uma portuguesa ainda lhe disse: "Até nós que trabalhamos no ramo estamos sujeitos a isso, caro senhor. Cá temos nós também nossos remedinhos para certas horas, pode crer. É normal". 

Nem sempre as coisas foram tão simples. Em 1982, tinha eu meus 24 anos e a vida adulta começara de forma pouco trivial. Alguns dos planos ficaram de pernas para o ar e outros tantos, até muito mais desafiadores, me obrigavam a uma constante reinvenção de mim mesmo. É claro que isso suscitou uma reviravolta emocional interna que uma hora ou outra tentaria achar uma forma de aflorar. Aviões se prestam de maravilha para isso. Ora, estava a bordo de um aparelho da Avianca, na cabeceira do aeroporto de Bogotá, quando senti o ar curto. Sentado junto à janela, dois indivíduos que mais pareciam ter saído de telas de Botero eram meus vizinhos de infortúnio. De um pulo, agi como o senhor que acabara de ter a reação de pânico, tida com estapafúrdia pela maioria. 

Em meu caso, troquei de lugar com o cidadão do corredor, tomei um ansiolítico que me deram e aguentei bem o tranco até Medellín, bastante preocupado com a possibilidade de que tivesse aquela terrível sensação de morte súbita quando estivesse sozinho no quarto do hotel. Ao longo da vida, voltei a senti-la por mais umas três vezes, e em todos os casos consegui segurá-la à base de um exercício respiratório e meio Lexotan. Se hoje, contudo, todo mundo sabe o que é Síndrome do Pânico, há quase 40 anos isso parece que não era lá tão evidente para a maioria dos médicos. Tivesse eu tido a chance de falar com o homenzarrão que deu seu grito de alerta antes que a angústia o devorasse por dentro, eu lhe teria sugerido buscar ajuda especializada, talvez terapêutica. No final, tudo dá certo. 

Ainda lembro da última vez que passei por situação similar. O recepcionista de um pequeno hotel parisiense me propôs pegar a van de um chinês que levava passageiros para o aeroporto a 15 euros por cabeça. Quando o carro chegou, estava apinhado e sentei lá atrás, no último lugar, sem acesso às portas corrediças. De terno e gravata, comecei a imaginar um acidente. Logo vi as manchetes: "Van clandestina se espatifa em Porte de Clingnancourt. Brasileiro corpulento ficou preso nas ferragens por 3 horas até ser retirado sem vida". Pronto. Foi o que bastou para eu pedir que o chinês parasse. Os demais passageiros também se assustaram com a cena de meu alarme poliglota e ansioso. Depois foi passando. Coisas de quem está na chuva, ossos do ofício perigoso que é viver. 


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