Os setores e empresas do Sul que estão na mira do investidor

CEO da Bateleur faz suas apostas, mas avisa: tudo vai depender da aprovação de reformas – a começar pela da Previdência

Por Marcos Graciani

graciani@amanha.com.br

CEO da Bateleur faz suas apostas, mas avisa: tudo vai depender da aprovação de reformas – a começar pela da Previdência

Qualquer que seja o cenário do Brasil, o investidor estrangeiro sempre olhará para as oportunidades na maior economia da América Latina, sustenta o CEO da Bateleur, Fernando Marchet (foto). Mas havendo uma reforma da Previdência que conserte o desequilíbrio fiscal do governo e abra caminho para outras reformas, o apetite lá fora pode envolver projetos até superiores à cifra de U$S 100 bilhões que frequenta algumas projeções. Em entrevista ao Portal AMANHÃ, Marchet aponta as áreas, ramos de negócio e empresas que têm maior potencial para atrair o interesse do investimento externo – e também do investidor brasileiro.  No radar de Marchet aparecem escolas, empresas de varejo e de tecnologia, assim como cooperativas. 

Na sua opinião, em que medida a aprovação da Reforma da Previdência servirá como acelerador de investimentos no Brasil?
Atualmente o problema fiscal faz com que a taxa de juros real no Brasil seja, ainda, bastante alta. Fazendo um ajuste na estrutura fiscal é possível que tenhamos um cenário melhor no médio e longo prazos. Desse modo, atrairemos investimentos do setor produtivo, o que fará melhorar o ambiente de negócios.

É importante acelerar a reforma?
Sim, pois existem outros passos a serem dados depois da aprovação da Reforma da Previdência. Ela abriria espaço, por exemplo, para outros avanços, como a agenda de privatizações, a desburocratização do Estado e a reforma tributária – completa ou ainda parcial. Os [investidores] estrangeiros têm acreditado que a agenda do novo governo dê apoio ao empreendedorismo, o que trará desenvolvimento ao setor privado.  As instabilidades típicas do Brasil são as únicas preocupações no momento.  

Fala-se em aportes de até US$ 100 bilhões que estariam à espera das reformas. Esse montante pode se confirmar, ou até mesmo crescer?
Não tenho uma estimativa. Porém, prevendo um período mais longo de tempo, com maturação dos investimentos em cinco, dez anos, superará bem esse valor. 

Dentre os segmentos de atuação de empresas públicas que serão privatizadas, quais atrairão mais os investidores estrangeiros?
Curiosamente noto interesse em todos os setores – alimentos, agronegócio e, no caso de infraestrutura, desde estradas até saneamento básico. Quem olha de fora o tamanho do Brasil quer conhecer todos os segmentos, ainda mais em um país com tantas diferenças regionais. O interesse inicial típico de um estrangeiro é querer saber como funciona o mercado e quais são os possíveis drivers negativos e positivos de cada setor. O que eles mais desejam é ter segurança em um ambiente institucional que os proteja de instabilidades. Recentemente, por exemplo, tivemos a intervenção de Dilma no setor elétrico e aquilo comprometeu mais de uma década de investimentos. Governadores também não podem mexer nas regras do jogo que podem interferir na estrutura de resultados de um investidor. 

Existe algum setor no ambiente de negócios da região Sul em vias de se tornar muito próspero?
Tecnologia voltada à inovação, com certeza. Já existe alguma consolidação ocorrendo. Há polos importantes do Paraná para baixo, sem esquecer de mencionar que o mercado interno brasileiro tem grandes players e não são apenas os investidores de fora que se interessam. Temos muitos investidores locais interessados, também. 

As cooperativas de produção, outro importante vetor da economia do Sul, incluem-se entre estes alvos?
Exato. Existem cooperativas muito fortes, principalmente em Santa Catarina e no Paraná. Entendo que cada vez mais as cooperativas voltarão seus negócios para a industrialização para ganharem escala e competitividade. Prevejo que surgirão espécies de joint ventures entre cooperativas, uma figura jurídica, digamos assim, em nome da eficiência. Isso deve ocorrer muito no Sul já que aqui o setor privado atua bastante na cadeia avícola.

Quais outros segmentos serão consolidados na região?
O setor de saúde segue aquecidíssmo nos três estados. Além disso, o segmento educacional, que teve um estímulo artificial guindado pelo setor público – foi um período em que a estratégia era ter o maior número de alunos para ampliar o acesso aos recursos do Fies. No entanto, a segunda onda de aquisições é e será tipicamente privada, e a procura será por escolas que se destaquem por apresentar bons resultados financeiros.  

O Sul segue tendo várias redes de varejo que são de origem familiar e ainda estão sob o comando de fundadores ou mesmo sucessores. Veremos uma nova onda de fusões e aquisições como ocorreu no passado?
Esse é um setor que tem muito a se consolidar ainda e este processo será fomentado por players internos. O varejo está estritamente ligado à economia, pois depende de renda e crédito. A inadimplência ainda está muito alta e o mercado financeiro segue cortando crédito ou oferecendo empréstimos com altos juros. Porém, empresários e consumidores vêm melhorando suas perspectivas para a economia. A partir do momento que emprego, renda e crédito retomarem o crescimento, fomentando o consumo em geral, a onda natural levará o comércio a obter melhores resultados. Nesse cenário, voltará o interesse de redes maiores quererem adquirir redes menores e haverá uma nova consolidação nesse sentido. Existem muitas redes de varejo familiares nos três estados do Sul e ainda que os movimentos possam começar neste ano, imagino que fusões e aquisições ganharão maior velocidade a partir de 2020.

Em tempos de economia fraca, de que modo costumam se dar as negociações?
Existem os dois lados das transações. Em um cenário adverso, o comprador quer adquirir tentando pagar menos pelo ativo. Já o vendedor tranca muito o negócio, pois tenta provar que aquele resultado magro de curto prazo tem alguma razão e que, em condições normais, a empresa está mais próxima de 100 do que 55. Não é uma equação simples, afinal o vendedor tenta receber um valor medido pelo seu pico. Resta ao interessado esperar para ver se existe alguma tendência desse retorno aos resultados em melhores patamares. Alguns ritos [de fusão e/ou aquisição] foram mais demorados por conta dessa complexidade e pelo fato particular de que no Brasil as empresas mudaram seu patamar histórico. Tanto é que os negócios que conseguimos fechar ao longo de 2018 envolveram companhias resilientes à crise. Elas até não conseguiram potencializar seus resultados ao máximo, mas não perderam margem ou fatia de mercado. Se fizeram isso em um momento ruim da economia, com certeza voltarão a crescer com maior ímpeto com a retomada do desenvolvimento no país. 


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