Filhos de Altas Patentes

De forma geral, acho a elite brasileira muito mal preparada

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Reunião em escritório

Quem está lembrado de Uday Hussein al-Tikriti? O filho do ditador do Iraque viveu quase 40 anos. Em pouco tempo de vida, contudo, conseguiu deixar um rastro de destruição descomunal. Conta-se que certa vez estava num hotel onde se realizava um casamento. Ora, Uday gostou da noiva. Ordenou então que ela fosse levada a seus aposentos e diluiu a boda. Este foi só um caso entre dezenas de torturas, desmandos e arbitrariedades. Em 2003, foi abatido pelos americanos em Mossul. Bem ali ao lado, à mesma época, Bassel al-Assad, filho do ditador sírio, gostava de se pavonear em uniforme militar. De mais, capitaneou uma campanha anticorrupção que só imunizava mesmo sua família e amigos. Aos 32 anos, estatelou-se em alta velocidade numa rotatória de Damasco e morreu, abrindo espaço para o irmão, Bashar, que até hoje rivaliza com o pai em truculência, apesar do verniz ocidental. 

Não é fácil ser pai. Mais difícil é quando não se dão limites aos filhos e estes confundem os rapapés do poder como uma homenagem que se lhes prestassem por direito divino ou algo parecido. Assim sendo, são imensas as chances de resvalarem para o ridículo absoluto como Jean-Claude Duvalier, o "Baby Doc", filho do ditador do Haiti. Na verdade, nem todo filho de presidente tem o gabarito de um Justin Trudeau, ou traz um legado consolidado de serviço público como o da família Kennedy. De quem me lembre sem qualquer esforço de memória, sei de filhos que deram problemas aos seguintes pais: Michele Bachelet, Jacob Zuma, Hassan II, Rei Salman, Kofi Annan, e já que falamos de dois reis aqui, coloquemos Pelé na lista dos desafortunados, cujo filho não cresceu com senso de proporção e educação adequada. O que faz de George W. Bush nesse contexto, quase um virtuose. E de Kim Jong-un um aspirante a estadista. 

De forma geral, acho a elite brasileira muito mal preparada. E já nem falo aqui das pequenas dinastias políticas que grassam de Norte a Sul do Brasil, em que parece a coisa mais natural do mundo que a Renan pai suceda Renan filho, e assim aconteça em todos os níveis da vida pública. Falo aqui da inciativa privada. Vi nos anos 1980 inversões de valores que me dão o que pensar até hoje. Falo de herdeiros recém-formados em faculdades de segunda categoria que aportaram em empresas grandes, exigiram ser chamados de "doutor" e demitiram engenheiros com 30 anos de casa por puro capricho. Jovens que, a despeito de ter algum talento, saiam dos bancos escolares direto para uma função de direção, quase sem escalas. Isso dito, o que aconteceu no Brasil nas últimas 72 horas em torno do ministro Bebianno foi absolutamente lastimável. O mais grave, porém, é que tudo isso era perfeitamente esperável. 

Nessa pisada, podem escrever, ainda podemos piorar muito. Muito mesmo.


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