Bêbados de shopping

Escrutinando as tribos a que posso vir a pertencer na idade provecta, decidi que não quero ser como um deles

Por Fernando Dourado Filho, de São Paulo (SP)

Homem bêbado debruçado na mesa

Durante anos, gostei muito do Brasil. Por ironia da vida ou não, foi justamente à época em que mais recebia convites para viver no exterior, de 1985 até a virada do milênio. Mas ora, na prática isso não fazia diferença. Singrando os continentes com saúde e conforto, entendia que viveria no mundo, mas meu domicílio seria em São Paulo, uma cidade cosmopolita e tentadora. Hedonista de raiz, as mazelas tupiniquins não me afligiam sobremodo e as derrapadas de Brasília eram escusáveis mesmo porque não éramos um país para desabrochar no presente, e sim no futuro. Enquanto a bonança não vinha e o maná não caía do céu, vivia intensamente. Agora, o futuro chegou, não tardará para que a saúde claudique, e o que teremos? Um país engolfado por tsunamis de lama, que vai da construção à ruína em poucos anos, e fértil como poucos em desacertos que nos trazem as marcas da vergonha.

Claro, não quero universalizar o desconforto. Mas, sinceramente, começo a perder o carinho pelo país adolescente e bonachão, pelo menino perdulário e esbanjador, mesmo porque se lhe perdoariam os juros da farra em nome de um amanhã venturoso. Nesse contexto, o Brasil me cansa quando estou em suas fronteiras. Mas também longe daqui, quando nosso infortúnio transcende o trágico e vira a piada multilíngue da vez. No mais, pequenos agravantes se fazem grandes. Já não tenho energias para ver glamour em condutas deliberadamente incivilizadas, como via quando jovem. Gente que fala aos berros ao telefone dentro do avião, pessoas que se convidam para sentar à sua mesa e, não contentes com a falta de modos, ainda laçam passantes para completar o quórum de sua tribuna privada, indiferentes à privacidade que o núcleo original buscava.      

Nesse contexto, escrutinando as tribos a que posso vir a pertencer na idade provecta, decidi que não quero ser um bêbado de shopping. Refiro-me à malta que circula com uma garrafa de uísque sob o braço, comum no Nordeste, como se ali levasse o galardão do merecimento, o elixir da socialização, o prêmio pelos esforços passados, o pirlimpimpim engarrafado com que brindará a audiência ébria, quando se gabará com voz arrastada de amigos notáveis e glórias biográficas a conta-doses. Não gosto de vê-los desancando o país que lhe paga gordas aposentadorias, mas tampouco me seduz este mesmo Brasil que perenizou desigualdades, descuidou da cidadania e seviciou a terra. Já não sou um homem portátil, o profissional sobre cuja mesa sobravam convites. Mas bem que queria levantar velas e baixar em outra freguesia. O passivo brasileiro achata meus poucos ativos emocionais.      


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