Jogador de futebol

Os garotos que estavam ali no dormitório do Flamengo tinham todos os motivos para sonhar muito alto

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Ninho do Urubu, campo de treinamento do Flamengo, no Rio de Janeiro

Não sei bem com que sonhavam as meninas de ontem e com que sonham as de hoje. Nos tempos que vivemos, talvez suas aspirações não difiram muito dos anseios dos meninos, Apesar disso, tenho certeza de que o imaginário masculino ainda é, por excelência, refém do sonho de ser jogador de futebol. Quando crianças, não são poucos os momentos em que projetamos cenas de glórias esportivas. Eu mesmo imaginava iluminadas tardes de domingo no estádio dos Aflitos, sede do Náutico, em que eu vestiria a camisa alvirrubra de número 6, jogando como lateral esquerdo, qual seja, marcando implacavelmente o ponta direita do adversário e, no apoio ao ataque, daria passes milimétricos para que meus companheiros de time estufassem a rede adversária, e melhor ainda que esta fosse a do arquirrival, o Sport. 

Comemorado o gol, mais tarde alguém me contaria o que os radialistas tinham comentado: "Rapaz, eles disseram que o gol foi todo seu. Que você desceu com a bola dominada e só não chutou direto porque quis homenagear seu camisa 9. Alguém comparou-o a Beckenbauer, sabia?". Esta e outras fantasias povoaram minha infância e continuam martelando a cabeça de milhões de meninos de todas as nacionalidades. Mais do que qualquer coisa, já que a questão financeira não galvanizava os meninos que fomos – e só poucos jogadores de futebol poderiam viver com tanto conforto quanto um profissional liberal –, eram os gritos da torcida que nos embriagavam. Da multidão, certamente viriam os olhares femininos que fariam nossa felicidade ainda mais completa. Ser amado pela torcida era uma aspiração que suplantava em glamour até mesmo a glória discreta e solitária de pilotar aviões. 

Certa feita, participei de uma "peneira" para a escolha de novos talentos. Comprei na Casa do Atleta uma desconfortável chuteira de cravos e fui para a beira do gramado, à espera de um aceno de um certo "seu" Batista, um farejador de craques. Sendo eu o único branco em dezenas de meninos, fiz de tudo para lhes imitar os trejeitos, castigar o português, coçar as partes pudendas e mostrar fora de campo a mesma malícia que eles pareciam ter. Em dado momento, "seu" Batista acenou para mim: "Vai pra linha, Branquinho". Corri atrás da bola querendo mostrar serviço. Cometi uma falta técnica, chutei em gol de fora da área e me desloquei para o centro para mostrar que não fugia à responsabilidade e tinha visão de jogo. Em dez minutos, acabou minha carreira. "Dá não, Branquinho. Tenta o basquete. Altura você tem". 

Dar certo no futebol é muito difícil. Consegui certa feita emplacar um enteado na peneira do Barcelona e todos sabiam que ele jogava muita bola. Mas não deu. Mandaram que tentasse outro time, que não desistisse. Foi duro. Até os melhores jogadores de minha escola ficavam muito aquém das exigências do padrão profissional. Os garotos que estavam ali no dormitório do Flamengo tinham todos os motivos para sonhar muito alto. No domingo acompanhei com emoção o histórico de cada um deles. Uma educadora conhecida ainda falou que ninguém frequentava a escola. Entendo sua preocupação, mas entendo a obstinação dos rapazes. A carreira curta de um jogador não comporta concessões a nada mais nesse estágio, sob pena de irem parar no chuveiro. Fiquei triste com um desfecho tão trágico. Um ou outro já poderia brilhar na Copa de 2022. Mas, agora, só mesmo como estrela no céu.


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