O tigre de Wole Soyinkha

O sujeito que se diz artista pode estar às voltas com dúvidas quanto ao próprio talento

Por Fernando Dourado Filho, do Recife (PE)

Wole Soyinka

Hoje decidi que não vou mais me identificar como escritor no rodapé das colunas que assino em revistas e jornais. Talvez o mais adequado seja me identificar como articulista ou cronista. Convenhamos, é mais apropriado ao que faço. Dois fatores pesaram para tal. O primeiro foi minha reação apatetada à pergunta de um amigo sobre meus proventos como escritor. "Zero, não ganho nada", respondi. Nessa hora, entendi que se não tiro o sustento da literatura, como posso me dizer escritor? É o mesmo que comprar medalhas, ornar a lapela e me pavonear de glórias fictícias nos salões. Como atenuante, posso sempre dizer que sou louco. Mas perderia o rebolado se fosse acusado de desonesto. Fica lavrada a promessa: no dia que ganhar o bastante para pagar um almoço para dois com as receitas literárias, vou me arvorar de ser o que quero ser...e que ainda não me tornei, apesar dos livros publicados. 

O segundo motivo de decisão tão solene quanto inócua vem da frase do Nobel nigeriano Soyinkha (foto). Dita de maneira altissonante por Evandro Affonso Ferreira, este um cultor da literatura de verdade, fiquei paralisado quando escandiu-a: "O tigre não precisa proclamar a sua tigritude. Ele ataca". Ao ouvi-la, corei. E, por pouco, não chorei. Extrapolando o raciocínio, ele vale para as artes em geral. O sujeito que se diz artista pode estar às voltas com dúvidas quanto ao próprio talento. Caberá aos outros proclamá-lo assim, se estiver à altura. Jamais a ele. Nem que o músico já tenha levado milhões aos estádios para escutá-lo. Na literatura, o sujeito pode, se muito, dizer que integra uma academia de letras, o que não quer dizer que escreva algo de aproveitável, se é que escreve um parágrafo ao mês. Afinal, academias são como portos sem bordel.  

Assim sendo, feito o auto-rebaixamento, tiro um peso das costas. Ou pelo menos, sinto o alivio que deve afagar impostores e embusteiros, quando batem à porta das vítimas para devolver-lhes o produto do golpe. Decisão tomada, o que fazer da vida doravante? O amigo que apontou a armadilha semântica em que eu me enredara e que designou o cadafalso de minha vaidade deslocada, foi sintético: "Passe a cobrar, rapaz". Isso me desacorçoou. "Pedir dinheiro para escrever? Morreria de vergonha. Amor para mim, só o desinteressado. Não sou do toma lá, dá cá". Ele balançou a cabeça, incrédulo: "Diletante, isto é o que és. Escritor, pelo jeito, não serás nunca". Pensando bem, quem mandou alardear minha tigritude antes da hora? No vazio, ecoam os bramidos de minha insignificância e, hélas, ninguém os ouve. 


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