Reflexões de Bratislava

Eis alguns detalhes comportamentais profundamente enraizados na chamada Europa do Leste

Por Fernando Dourado Filho, de Viena (Áustria)

Vista de Bratislava

Bastaram algumas horas ontem em Bratislava (foto), Eslováquia, para que voltasse a atentar para alguns detalhes comportamentais que sempre achei profundamente enraizados na chamada Europa do Leste, e que teimam em pautar a conduta dos indivíduos, a despeito dos quase 30 anos de liberdade política e de economia de mercado. Sem qualquer ordem de prioridade ou incidência, listo-os abaixo para que, a partir dessas generalizações, o leitor possa assegurar uma navegação fluída por essa parte do mundo, quando visitá-lo a trabalho ou a negócios.  

a) Nos tempos soviéticos, como eles se referem ao período da Guerra Fria, era comum que garçons não dessem a mínima bola para os clientes do restaurante. O poder residia não em quem tinha o dinheiro, mas em quem tinha o produto. Pois bem, isso em pequena medida continua. Os atendentes de bares e restaurantes se esmeram em evitar contato visual com o cliente para não ser surpreendidos com um pedido. Agradar, sorrir e encantar para aumentar a gorjeta parece ainda fora de cogitação, e é como se fosse uma rendição a um padrão exógeno. Naqueles tempos, quem trabalhasse duro era repreendido pelos pares por estabelecer um standard ameaçador aos demais; 

b) Não se espante se apesar da rusticidade das moradias, da infraestrutura e dos serviços públicos, jovens de todas as idades sejam afeitos a um visual metrossexual, onde cada detalhe parece ser objeto de muitos cuidados. A roupa das moças pode até não ser de grandes grifes, mas lá estará ela com uma saia de couro, apesar do frio; cílios arqueados, batom de cor viva e uma bota transada. Quanto a eles, secam o cabelo à máquina, reviram as barras dos jeans à moda italiana e podem exagerar no perfume, o que francamente é um alívio quando pensamos no Leste Mediterrâneo e do Mar Negro, onde o cheiro de suor é tolerado de uma forma que beira a indecência; 

c) Quando perguntados sobre os tempos de antes e os de depois dos anos 1990, a tendência geral se divide em três pontos de vista: 1) Ou bem a pessoa ainda não era nascida e não tem opinião formada a respeito; 2) Outra possibilidade é  a de que diga que não tem sequer uma nesga de saudades dos tempos das filas e do estado policial ou, por fim, 3) Que há vantagens e desvantagens em ambos os períodos. Eles são sensíveis ao que consideram injustiça social e dizem que havia dignidade no passado, apesar da penúria. Hoje, apesar da abundância, a vida resulta dura, competitiva e egoísta, uma palavra recorrente nessas conversas; 

d) Eles continuam com a noção de que os ditos ocidentais são permissivos moralmente, muito embora eles conheçam de perto um padrão quase predador de conduta, personificado pelos plutocratas, egressos muitas vezes dos quadros da antiga Nomenklatura dos partidos comunistas locais. Daí acharem que quem vem de mundos originalmente capitalistas, gostam de cassino, de prostituição e de tudo que se relacione a dinheiro. A inabilidade em ganhá-lo, por sua vez, os leva a romper vez por outra os limites da ética, tocados por uma sensação de impunidade e de inconsequência que lhes diz que um ocidental não levará isso a sério porque ele também é assim; 

e) Por fim, sempre me chama a atenção o amor das gerações mais velhas pela arte em geral. O legado positivo nesse campo foi inegável e me comove ver as pessoas levando flores nos transportes públicos para presentear uma bailarina, um tenor ou um regente. Nas novas gerações, esta já não é uma devoção tão acentuada na medida em que o entretenimento via WhatsApp os mesmeriza. Ontem, nas ruas desertas de uma Bratislava açoitada pela neve, o que não faltava era anúncios de espetáculos na fachada das salas de concerto. O legado do Segundo Mundo permanece vivo em quem tem mais de 50 anos, o que é um aceno de esperança. 


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