A onda da transformação cultural

As corporações precisam mais do que profissionais qualificados

Por Ademir Piccoli

As corporações precisam mais do que profissionais qualificados

A sociedade de forma global tem sido impactada por grandes ondas de mudança. E para surfá-las, é preciso movimentar-se. Por sinal, no surfe, para se manter em equilíbrio sobre a prancha enquanto a onda segue seu curso, é necessário usar praticamente todos os músculos, valendo-se de flexibilidade e estratégia para tomar decisões rápidas. Nas empresas, não é diferente. Para estar bem-posicionado nos mares organizacionais, é fundamental entrar na onda no momento certo e envolver-se por inteiro – de corpo e mente – na realização das manobras.

Vivemos na era exponencial, em que o uso intensivo de tecnologia transforma o mundo em uma velocidade nunca experimentada anteriormente, gerando uma desconexão adaptativa. Há milhões de anos, nossos cérebros têm evoluído de forma linear; agora, precisamos adequar esse padrão mental e adotar novos modelos de aprendizagem ágil para evoluirmos em quantidade de conhecimento à medida que as rotinas de trabalho forem alteradas pela evolução tecnológica. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, até 2022, mais da metade dos funcionários das organizações necessitarão de uma reforma significativa em suas qualificações profissionais. E apenas os mais bem adaptados sobreviverão. 

A adaptação da cultura às ondas radicais de mudança é um dos grandes desafios da transformação digital. É consenso que as corporações precisam mais do que profissionais qualificados. Elas requerem, na verdade, hábeis surfistas que saibam observar os movimentos das ondas de transformação e consigam evoluir com eles; para tanto, devem estar dispostos a aprimorar seu desempenho em harmonia com esses movimentos. O novo cenário de disrupções tecnológicas impõe o desenvolvimento de um amplo conjunto de habilidades digitais. Mas, em primeiro lugar, é preciso que as pessoas estejam abertas para o novo, sem medo da temperatura da água, da direção do vento ou de quaisquer outros fatores climáticos do ambiente em que vão surfar – ou atuar.

Não bastará, assim, que as instituições invistam em programas de desenvolvimento para a transformação digital. Claro que as condições ambientais corporativas devem ser as mais próximas do ideal para enfrentar as ondas que estão por vir. No entanto, a transformação cultural depende também da mudança individual, uma mudança de mindset. Afinal, lembre-se de que todo o corpo deve estar em movimento para se manter em pé sobre a prancha. Um dos destaques do Gartner Symposium/Itxpo 2018, importante encontro de executivos de TI do mundo todo, realizado em São Paulo em outubro, foi a apresentação do ContinuousNEXT. Trata-se de uma fórmula com cinco imperativos estratégicos (Privacidade, Inteligência Aumentada, Cultura, Gestão de Produtos e Gêmeo Digital) para o sucesso da transformação digital, e a mudança cultural foi colocada como um imperativo nesse cenário. Dessa forma, é imprescindível romper barreiras que inibam o processo de mudança.

Mas vale lembrar, de novo, que a quebra não deve ser apenas a dos obstáculos tecnológicos. Como ressaltou o Fórum Econômico Mundial, a proficiência em novas tecnologias é apenas uma parte das habilidades que necessitam de evolução até 2022. As ditas competências "humanas", como criatividade, originalidade e iniciativa, pensamento crítico, persuasão e negociação também reterão ou aumentarão seu valor, assim como a atenção aos detalhes, a resiliência, a flexibilidade e a solução complexa de problemas, itens que também estão na pauta. Inteligência emocional, liderança e influência social, bem como orientação para o serviço, integram a lista de aspectos que passarão a ser muito mais demandados em relação ao perfil atual dos surfistas dos mares corporativos.

Em 2022, ainda de acordo com o Fórum Econômico Mundial, espera-se que 58% das horas-tarefa de trabalho sejam realizadas por humanos, ante 42% por máquinas; hoje, 71% do total de horas de trabalho ficam a cargo da mão de obra humana. A IDC, empresa de inteligência de mercado, prevê que, até 2023, 35% dos trabalhadores vão atuar com bots (robôs) ou outras formas de Inteligência Artificial. Isso significa que o sucesso das organizações estará no alinhamento de pessoas, processos e tecnologia. Ou seja: ou você começa a rever seus conceitos e passa a romper suas próprias barreiras para se adequar a esse horizonte, ou assume o risco de ser substituído, uma vez que, sem as mudanças individuais requeridas pelo meio, o mar não estará pra peixe – nem para surfista – em relação àqueles que não abraçarem as ondas da mudança.

Portanto, é hora de agir. Como diz o ditado, camarão que dorme a onda leva, e o mesmo vale para quem surfa. Não seja pego de surpresa pela maré das transformações. O bom surfista é o que sabe se posicionar e escolher as ondas adaptadas ao seu nível. Afinal, não basta ficar em pé na prancha; é preciso se manter em movimento para pegar a onda em vez de ser atropelado por ela.


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