Inovação em hotelaria

Certos modismos são muito simpáticos, mas a condição é que o sistema esteja testado e aprovado

Por Fernando Dourado Filho, de Frankfurt (Alemanha)

Admito que, à medida que envelhecemos, tendemos a ficar mais arraigados às coisas tal como sempre funcionaram e observa-se alguma resistência à inovação. É claro que isso se agrava sobremodo quando se trata de pessoas como eu, assumidamente tecnofóbicas e, por natureza, dispersivas na hora de prestar atenção a procedimentos. Já tentei me corrigir, mas não consegui.  

Devo também dizer, por outro lado, que uma uma vez superada essa fase, quase sempre com o carinho e a paciência de quem está do outro lado, passo por rápida conversão. De refratário e resistente, viro adepto e propagador. Sei que ninguém tem obrigação de fazer caso de meus achaques de temperamento, mas é melhor passarmos à história que quero contar. 

Quem vem a Frankfurt, certamente vai querer passear pelas ruas de Sachsenhausen e desfrutar de seus restaurantes e bares de vinho. Nas cercanias do rio Main, lá está uma das partes mais agradáveis da cidade. Pois bem, tendo chegado aqui para passar um par de dias, eis que farejo uma boa oferta num hotel de nome atípico: Living Hotel Frankfurt by Derag.

Percorro as avaliações e vejo que são muito boas. Além de ser bem servido por ônibus, as instalações são de bom gosto, na linha de hotel boutique, e a tarifa é convidativa para os padrões de um dos principais centros da Europa. Reunidas essas condições, faço a reserva sem maiores temores de ter surpresas desagradáveis. Mas na vida temos que estar preparados para tudo. 

A recepção me pareceu um pouco sombria e algo caótica, mas isso não chega a ser grave. Sobre o balcão do bar, um iPad fazia as vezes de atendente. Era por ali que se fazia o check-in. Confirmados os dados, uma máquina ao lado supostamente daria a chave correspondente ao hóspede. Louco para subir, tomar um banho e sair para meus compromissos, nada funcionava. 

Chamei o rapaz em meu socorro e ele assumiu ares de que eu estava me complicando com bobagem. Ocorre que ele próprio se perdeu nos meandros do procedimento – falha grave para um alemão –, e terminou por levar 15 minutos para me dar a chave. Chegando ao quarto, não pude entrar. Ela não funcionava. Desci furibundo e mal lembrava como é bom xingar em alemão. 

Veio ele então com uma espécie de chave-mestra, até que lhe ocorresse a solução adequada. Afinal, não é correto deixar com um hóspede uma chave que abre todas as portas do hotel. Quando estou no meio do banho, lá vem ele a tocar insistentemente a campainha, de posse da tal chave. Como deixara a porta da varandinha aberta porque cheguei esbaforido, saí molhado e levei um vento assassino. 

Não, não peguei nenhum resfriado ou pneumonia. O que quero dizer é que certos modismos são muito simpáticos e é compreensível que isso seja trendy, que sinalize o que serão as recepções do mundo todo no futuro, quando não estarei mais aqui. Mas a condição é que o sistema esteja testado e aprovado. Quando não, jurássicos como eu vão explodir sempre que pegá-los no contrapé. E em alemão. 


No final, tudo acabou bem. 




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