Erro de cálculo do Japão

Saikawa pode ter a sensação de que cravou um tento com seu gol de mão

Por Fernando Dourado Filho, de Estrasburgo (França)

Hiroto Saikawa, CEO  da Nissan

Vinte anos atrás, eu já trabalhava intensamente com o Japão há quase quinze. O que quero dizer com isso? Que quando vi a eclosão do discurso algo xenófobo de Shintaro Ishihara, autor de "O Japão que pode dizer não", e então defensor do rearmamento nuclear nipônico, entendi que aquilo era sim um arroubo populista dirigido às novas gerações, mas que refletia a inquietação quase legítima de quem se tornara um gigante econômico e continuava a ser um anão militar. O recrudescimento de trovoadas nacionalistas não chegava, portanto, a comprometer o papel do país no concerto das nações. E seus principais problemas eram os elevados níveis de poupança interna e a estagnação do PIB, no que ficou conhecido como o período em que a economia andou de lado, como fazem os caranguejos.

Ora, daquela primeira noite que dormi em Shijuku, vendo os néons da capital, até esta semana, o Japão vinha tentando se tornar um ator mais legível e palatável à comunidade de negócios internacional. O golpe armado por Hiroto Saikawa (foto), o ex-número 2 da Nissan, contra seu chefe e mentor, o brasileiro Carlos Ghosn, desnuda práticas feudais nunca sepultadas e confere ao Japão a aparência de uma tremenda caixa-preta, o que só reforça as reservas enraizadas ocidentais de que o país consagra práticas sinistras. Isso porque, de comum acordo com o Miti, o Ministério da Indústria, e com informações a conta-gotas vazadas para a imprensa – depois de tê-la chamado para filmar a chegada do avião de Ghosn a Haneda –, a intenção do Corporate Japan é a de desgastar o dirigente e justificar sua demissão. 


A manobra de flanco, até o momento sem qualquer respaldo que justifique a prisão cautelar, nada contribuirá para aumentar os modestos 4% de investimento direto estrangeiro na economia do país. Ou seja, um nada, quando se sabe que o mesmo índice numa economia como a da França é de 34%. Ora, Ghosn encarnava como ninguém a possibilidade de que o Japão poderia sim atrair dirigentes estrangeiros para o topo de suas organizações, onde hoje representam apenas 2,5% dos presidentes. De mais, Ghosn assoma a olhos treinados como vítima do próprio sucesso. A possibilidade de unificar as empresas da aliança – Renault, Nissan e Mitsubishi – numa espécie de entidade jurídica única, ao cabo de 20 anos de gestão exitosa, trazia uma simbologia que se revelou intolerável para o Corporate Japan. 


Na verdade, a Nissan – forma abreviada de Nihon Sangyo –, um conglomerado quase centenário que geria marcas como a Isuzu, NEC e Hitachi, forneceu ao exército imperial caminhões, aviões e motores. Ora, essa empresa-símbolo estava a um passo de ser transferida para controle acionário francês, o que os setores mais sensíveis viam como mais do que um descalabro, um crime de lesa-pátria. O mesmo se aplica à Mitsubishi, organização icônica da modernização japonesa desde os tempos da Era Meiji (1868-1912). Assim sendo, esta seria a última viagem de Ghosn ao Japão em 2018 e, ao regressar em fevereiro de 2019, arbitraria um jogo para o qual só ele estava legitimado. Nesse contexto, a comunidade de negócios entende que o establishment  judicializou para frear a aliança. E o fez da forma mais torpe possível. 

No mais, a reforçar a percepção de que o Japão não consegue se desvencilhar das amarras culturais, foi patético ver Hiroto Saikawa, apenas horas depois da detenção de Ghosn, vir a público alegar que havia uma concentração muito grande de poderes nas mãos de uma só pessoa e que o sucesso atual da Nissan se devia ao esforço de gerações, inclusive dos antigos dirigentes. Convenhamos, todo mundo sabe que quando Ghosn assumiu o barco, lá se vão quase 20 anos, a Nissan estava adernada e só um gaijin poderia reverter os tabus que sempre pautaram o Arquipélago, como empregos vitalícios e práticas de gestão patriarcais. No curto prazo, Saikawa pode ter a sensação de que cravou um tento com seu gol de mão. A médio e longo prazos, o Japão está indelevelmente maculado. 


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