Pintou comércio

Ou: o mercado como fonte de independência e dignidade

Por André D´Angelo

Um dos quadros feitos pelos integrantes da Associação dos Pintores com a Boca e os Pés

Assim como eu, o leitor já deve ter recebido, por esta época do ano, uma correspondência diferente. Um pequeno e robusto envelope repleto de cartões de Natal e/ou um calendário do ano seguinte, com as mais diferentes ilustrações. Junto, uma carta explicando do que se trata: a Associação dos Pintores com a Boca e os Pés (APBP), com sede em São Paulo, dá uma amostra dos trabalhos desenvolvidos por seus membros, e sugere, em troca, uma contribuição – que na verdade nada mais é do que a compra do kit através de um boleto bancário. 

Simpatizei com a iniciativa desde a primeira vez devido a sua astúcia comercial: em vez de convidar o consumidor a entrar numa loja on-line e comprar seus produtos, com chance mínima de sucesso, a Associação percebeu que era mais interessante enviá-los de antemão, demonstrando a qualidade do trabalho que desenvolve para, desse modo, sensibilizar o prospect. Os custos de produção e de envio do material possivelmente tenham um ponto de equilíbrio razoável, de maneira que um percentual bastante factível da base de destinatários convertidos em compradores seja suficiente para evitar prejuízos. Com um bom controle do mailing, é possível, ao longo dos anos, ver quais os endereços mais propensos a adquirir os produtos, aumentando a eficácia da ação.

Recentemente, informações adicionais a respeito da instituição aumentaram minha admiração pela Associação. Nascida em Liechtenstein, Europa, a entidade tem como propósito permitir que pessoas com limitações físicas atinjam a independência financeira através do próprio trabalho. Para isso, fornece bolsas de estudo àqueles que precisam aprender a pintar, para só então incorporá-los ao seu elenco de artistas. Estes se encarregam de produzir pinturas que irão virar telas, calendários, cartões e outros produtos comercializados pelo correio ou pelo site. A instituição não aceita doações – contribui-se valorizando o trabalho de seus associados ao comprar os produtos –, de modo a desestimular as ideias de caridade e dependência em prol das noções de trabalho e comércio, mais dignas. Uma maneira inteligente e moderna de gerir uma entidade filantrópica ao inseri-la no mercado (saiba mais sobre a APBP a partir da página 11 desta publicação clicando aqui). 

Mercado que, a despeito de todas as suas limitações, conserva duas virtudes. A primeira, de aproximar nações e frear impulsos bélicos, ao torná-las dependentes comercialmente umas das outras para prosperar. A segunda, de permitir que parte da alocação de recursos da sociedade ocorra em uma arena razoavelmente livre e aberta, na qual é possível disputar as preferências dos consumidores com armas de todos os modelos e calibres – como pinceis e tintas, por exemplo. 



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