Mercado ilegal de cigarros bate recorde no Brasil

Diferença tributária com o Paraguai estimula o crime

Da Redação

redacao@amanha.com.br

Mercado ilegal de cigarros bate recorde no Brasil, revela pesquisa

Uma pesquisa realizada pelo Ibope mostra que o mercado ilegal de cigarros atingiu um patamar inédito no Brasil. Em 2018, 54% de todos os cigarros vendidos no país são ilegais, um crescimento de seis pontos percentuais em relação ao ano anterior. Desse total, 50% foram contrabandeados do Paraguai e 5% foram produzidos por empresas que operam irregularmente no país. A pesquisa do Ibope foi realizada em 208 municípios de todo o país, por meio de entrevistas presenciais e com recolhimento dos maços de forma a garantir a precisão da informação. Foram ouvidos 8.266 consumidores entre 18 e 64 anos. 

O principal estímulo a esse crescimento é a enorme diferença tributária entre os dois países. O Brasil cobra em média 71% de impostos sobre o cigarro, chegando a até 90% em alguns estados, enquanto que no Paraguai as taxas são de apenas 18%, a mais baixa da América Latina. Com isso, em 2018 a diferença do valor cobrado entre os cigarros brasileiros e paraguaios chegou a 128%. Com isso, o mercado nacional foi inundado com mais de 57 bilhões de cigarros ilegais, enquanto que o consumo de produtos brasileiros caiu para 48 bilhões de unidades. Ao somar o universo de cigarros ilegais e legais, é possível ver um aumento no consumo no país: em 2017 foram consumidos 102,7 bilhões de unidades (49,2 ilegais e 53,5 legais), número que foi para 106,2 bilhões em 2018 (57,5 ilegais e 48,7 legais). Para Iro Schünke, presidente do Sindicato Interestadual da Indústria do Tabaco (SindiTabaco) , além de danos econômicos, o mercado ilícito pode trazer danos para os consumidores, pois os produtos não são controlados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Os números apresentados pela pesquisa do Ibope demonstram os grandes danos que o mercado ilegal causa à cadeia produtiva do tabaco, reduzindo empregos e renda para os brasileiros e encolhendo os tributos do governo. Além disso, esses produtos expõem os consumidores ao consumo de produtos sem qualquer fiscalização”, alerta Schünke.

Para Edson Vismona, presidente do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO), um fator perverso decorrente do aumento no contrabando de cigarros é que os brasileiros migram do mercado legal para o ilegal para poder economizar dinheiro e ao mesmo tempo aumentam o consumo. "O levantamento apontou que, mesmo gastando menos, já que os cigarros contrabandeados não seguem a política de preço mínimo estabelecida em lei, os consumidores acabam fumando, em média, dois cigarros a mais por dia. Isso mostra que as políticas de redução de consumo adotadas pelo governo não estão sendo eficazes, por conta do crescimento do mercado ilegal" afirma Vismona.

Outro efeito negativo é o avanço na evasão fiscal. Em 2018, o Brasil deixará de arrecadar R$ 11,5 bilhões em impostos. Esse valor poderia ser revertido para a construção de 121 mil casas populares ou 6 mil creches. Pela primeira vez desde 2011, a evasão de impostos será maior do que a arrecadação, que deve fechar o ano em R$ 11,4 bilhões. O contrabando de cigarros é fonte de financiamento para outros crimes como o tráfico de drogas, armas e munições. Neste ano, as duas marcas mais vendidas no país são contrabandeadas do Paraguai: Eight, campeã de vendas com 15% de participação de mercado, e Gift, com 12%. Outras duas marcas fabricadas no país vizinho compões a lista dos 10 cigarros mais vendidos: Classic e San Marino (ambas com 3% de mercado). Essas marcas são produzidas no país vizinho, mas têm como alvo principal o mercado brasileiro, pois não são vendidas por lá, o que mostra a profissionalização das quadrilhas que controlam esse comércio. Recentemente foi registrada a venda de maços de cigarros da marca Eight com 10 unidades. No Brasil, os maços devem ter 20 unidades. A introdução desses maços, que custam em média apenas R$ 1,50, tem como objetivo oferecer uma opção ainda mais barata para os consumidores. 


leia também

AGU contesta liminar que suspende alta de impostos - A previsão é arrecadar mais R$ 10,4 bi com o aumento do PIS/Cofins

Alta de impostos compromete volta do crescimento - Para industriais do Sul, contas públicas devem ter equilíbrio

Arrecadação de impostos cai 7,3% no primeiro semestre - Em junho, a soma chegou a R$ 98 bi, o pior resultado para o mês desde 2010

Arrecadação de impostos tem queda de 8,2% em setembro - Receita recolheu R$ 94,7 bilhões em contribuições

Arrecadação de impostos tem queda real de 11,53% - É o pior resultado para fevereiro desde 2010

As jabuticabas tributárias fazem o Brasil ser injusto - Opinião é de Rafael Nichele, novo presidente do IET

comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: