Um teste para a bravura dos gaúchos

Para Eduardo Leite, é dever motivar uma agenda positiva

Por Eduardo Leite*

Para Eduardo Leite, é dever motivar uma agenda positiva

A crise moral, ética, política, econômica e, sobretudo, social que o país vive cobra caro seu preço mas também nos ensina lições. A primeira delas é a de que o Estado não é mãe dadivosa a distribuir de forma irresponsável mais benefícios do que as contas públicas podem suportar. 

A segunda é que o custo dos agrados político-eleitoreiros é pago, tristemente, por quem mais depende da ação do Estado. E mais: a falta de coragem do agente público que se recusa a pagar o preço político pela austeridade, no geral antipática e impopular, mas necessária, deságua nesse futuro desolador que, hoje, por exemplo, é o presente de todos os gaúchos.

Aqui no Rio Grande do Sul, em particular, em meio a ações de irresponsabilidade inegável, governos de diversas colorações político-ideológicas, acossados por opositores via de regra oportunistas, conduziram nosso Estado a essa situação calamitosa, com reflexos em todos os setores da vida social. 

Como os argumentos sobre a busca das soluções restringem-se às justificativas herméticas, à proposição de metas sem compromisso com os meios ou sem abrir com honestidade os custos dessas supostas ações corretivas, a verdade sobre a nossa situação ou o que fazer para sair da crise não chegam à compreensão popular. E assim abre-se o caminho para o pior: o populismo nefasto, encoberto pela neblina da cena política a privilegiar oportunistas, provocar distorções de imagens e complicar ainda mais a busca de soluções efetivas. 

Não há saídas para a compreensão do quadro de dificuldades sem a utilização eficiente de mecanismos de transparência na gestão pública, sem o esclarecimento daqueles de boa vontade que, felizmente, ainda são em maior número na sociedade gaúcha.

É preciso coragem, atender ao que for urgente e emergencial, sem submeter-se ao barulho das corporações. Não é possível perder de vista que elas estão comprometidas não com o destino do Estado e de seu povo, mas, compreensivelmente, com interesses próprios e particulares de suas categorias.

É necessário recusar-se a aceitar as imposições de governabilidade a qualquer custo, o jogo rasteiro e suspeito da política que faz o governante abrir mão do essencial, o interesse público. Não é possível privilegiar mais a autopreservação política em detrimento da construção segura do futuro coletivo. A ação pública verdadeiramente merecedora de respeito (os exemplos dos grandes estadistas nos confortam) não pode centrar-se na contemplação de interesses próximos, particularmente daqueles que se resumem à projeção de fugazes carreiras políticas; deve visualizar horizontes largos, de verdadeira inclusão social, e ser pautada por passos firmes, consistentes e resolutivos.

A duração de um mandato, de outra parte, acaba impondo às ações de um governo um horizonte temporalmente escasso para que boas práticas políticas sejam sedimentadas e para que – particularmente em um Estado combalido, como é o caso do Rio Grande do Sul – as necessárias correções de rumo sejam alcançadas. Promover o empoderamento popular pela transparência e pelo engajamento social efetivo é essencial para determinar uma mínima ação política continuada, que permeie sucessivos governos e determine as mudanças necessárias para superar a crise de uma vez por todas. E essa mesma participação social deve agir como controle para constranger desatinos. Não é possível reclamar de aumento nos impostos e silenciar-se ao avanço nos depósitos judiciais, ficar-se passivo diante de concessões de benefícios a determinadas categorias, enquanto o Estado sequer consegue pagar a folha do mês aos seus servidores. Precisamos, enquanto povo gaúcho, ter disposição, inclusive, para questionar e debater um orgulho que, no limite da arrogância, pode estar servindo de impedimento a que façamos um diagnóstico preciso de nossa situação e que, com isso, possamos encontrar o melhor tratamento às nossas fraquezas. A realidade é que o Rio Grande do Sul não é mais o Estado diferenciado dos outros entes federativos que um dia já foi. Hoje perdemos posições nos rankings que medem qualidade de vida, segurança, atendimento de saúde, nível de ensino ou de competitividade de investimentos privados e vemos outros Estados passarem por nós em alta velocidade. 

Um governante tem o dever de liderar e motivar a sociedade em torno de uma agenda positiva. Sem a efetiva participação popular e sem a corresponsabilidade da sociedade, no entanto, essa agenda não perdurará ao longo dos sucessivos mandatos. Essa profunda mudança de mentalidade é que pode nos afastar do risco de que, nos próximos 30 anos, as capas de AMANHÃ continuem a reproduzir as perplexidades e amarguras que têm sido visualizadas nas últimas três décadas.

*Governador eleito do Rio Grande do Sul e ex-prefeito de Pelotas. O artigo foi veiculado originalmente no volume 1 da série Cenários de AMANHÃ – RS: a hora de acertar. 


comentarios


Seja o primeiro a comentar a notícia!



Comentar

Adicione um comentário: