Agenda de promoção do crescimento do novo governo não está clara

Para especialistas, ainda faltam detalhes quanto à definição de como será a condução da economia com Bolsonaro

Por Marcos Graciani

graciani@amanha.com.br

Para especialistas, ainda faltam detalhes quanto à definição de como será a condução da economia com Bolsonaro

Após a confirmação de que Jair Bolsonaro (PSL) governará o Brasil, o mercado recebeu a notícia de forma positiva. As medidas esperadas para o início do próximo mandato incluem o dólar e o juros baixando, com a perspectiva de colocá-los em patamares que já estiveram antes, como a moeda norte-americana no patamar de R$ 3,20 e os juros mais longos próximos de 9,6%. A conquista já vinha se antecipando com a queda do dólar, que saiu de 4,20 para R$ 3,70. “A perspectiva é que continue esse processo de valorização nas próximas semanas e haja fluxo de capital para o Brasil com os agentes tentando se aproveitar dos prêmios que ainda restam nos preços dos ativos brasileiros. Depois, esse processo tende a se estabilizar, evidentemente. Os preços chegarão ao seu nível de equilíbrio e os agentes esperarão os conjuntos das medidas que o governo tomará em relação ao novo reordenamento da política fiscal, déficit público, do endividamento brasileiro, da privatização e da reforma da previdência”, explica Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da Nova Futura Investimentos. 

A agência de classificação de risco brasileira Austin Rating também vê cenários positivos para a economia. Tanto é que a vitória de Bolsonaro estimulou a Austin a revisar suas estimativas para um cenário mais otimista para 2019, bem como projetar o ano de 2020 com maior vigor nas principais variáveis macroeconômicas, como PIB e taxa de juros, por exemplo. Para a Austin, a expectativa é que a vitória de Bolsonaro vai impactar positivamente a confiança dos agentes econômicos, especialmente investidores e empresários, com efeito direto sobre a redução dos prêmios de risco e valorização dos ativos financeiros, bem como na retomada mais rápida do nível dos investimentos nos setores produtivos que vão acelerar o ritmo de recuperação da economia brasileira já no curto prazo. “O cenário de maior confiança na economia também deve gerar bons frutos à área fiscal, seja pela expectativa de maior arrecadação via crescimento mais robusto que o inicialmente projetado, ou pela maior probabilidade de sucesso nos processos de concessões e privatizações, pois, além de colocar dinheiro no caixa também vão desonerar o governo quanto aos recursos atualmente direcionados para custeio nas áreas”, prevê Alex Agostini, economista-chefe da agência. “Entendemos que tal cenário, caso se concretize em 180 dias, o rating soberano do Brasil deverá sofrer revisão positiva”, antecipa ele. 

Na visão de Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset, a articulação política é o principal fator que desencadeará as reformas. Vieira lembra que todos os programas pretendidos pelo futuro presidente dependem de um alinhamento congressual ao qual o PSL não possui expertise. No entanto, a aproximação de Bolsonaro com Rodrigo Maia (DEM), interessado em se manter como presidente da Câmara, e de bancadas suprapartidárias [como da bala, ruralista e evangélica] garantem uma largada com boa mobilidade. “Bolsonaro deverá alinhar com sua equipe econômica as principais propostas para este início de governo, focando naquelas que tem impacto mais imediato e podem trazer um alento tanto da população, quanto do Congresso. O foco na economia deverá ser mais importante do que nos costumes, pois além de gerar menor polêmica, cria um forte ônus à oposição em caso de tentativas de se barrar as pautas. As propostas fortemente voltadas aos negócios, principalmente com a desburocratização e maior liberdade econômica tendem a ter menor resistência, porém, temas pesados como previdência, reforma tributária e fiscal deverão aproveitar o namoro dos primeiros 100 dias com o Congresso e serem colocadas em pauta”, avalia Vieira. 

A agência de classificação de risco Moody’s Investors Service avaliou que Bolsonaro deve criar mais confiança entre os investidores e reduzir a volatilidade cambial, mas advertiu que um Congresso fragmentado ainda representa um risco para as reformas. De acordo com o relatório da Moody’s, falta maior clareza quanto à definição de como será a condução da gestão pública e da economia. Também associa essa indefinição aos desafios a serem enfrentados no próximo ano em relação ao gasto fiscal, reforma da previdência e o apoio político no Congresso. “Apesar de Bolsonaro não ter articulado integralmente a sua agenda para a política econômica, os investidores têm a percepção de que ele provavelmente buscará políticas pró-mercado, beneficiando vários setores da economia”, afirma Samar Maziad, vice-presidente da Moody´s. A economista adverte que a capacidade de uma coalização em torno das reformas ainda não foi testada. Em sua análise, o novo governo terá dificuldades para um acordo nesse sentido. “A capacidade de sustentar o momento político favorável e o apoio do Congresso ainda precisam ser comprovados”, escreveu. 

Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos, nota que a agenda de promoção do crescimento do novo governo não está clara. "Há várias propostas de reformas estruturais bem encaminhadas por Temer, mas não sinalização sobre sua continuidade. A privatização da Eletrobras, que deveria ser prioritária, parece pouco provável. O mesmo vale para a reforma tributária que deverá criar o Imposto sobre Valor Agregado, o IVA. Com baixo crescimento da arrecadação e uma reforma da previdência tímida, será difícil os estados apoiarem esta iniciativa, pois temem perdas de receitas futuras", alerta Zeina. 

Alexandre Schwartsman, professor convidado da pós-graduação em Finanças, Investimentos e Banking (FIB), da PUCRS, também põe em dúvida se a política econômica no governo comandado pelo PSL será realmente liberal.” É bem verdade que tanto Paulo Guedes como a equipe de assessores econômicos que orbita em torno dele têm convicções fortes a este respeito e não tenho a menor dúvida que, no que depender deles, seria esta a orientação de política econômica. Ocorre que, da forma como entendo o problema, não depende só deles, que, a bem da verdade, deverão ter um peso muito menor do que geralmente presumido na determinação do rumo do programa econômico”, destaca. 

Para Schwartsman, o mandato de Bolsonaro para levar adiante as reformas já começa comprometido, problema agravado pelo Congresso ainda fragmentado, que padece da mesma dificuldade, como a falta de apoio popular a medidas de corte de gastos em geral e reforma da previdência em particular. “Há, adicionalmente, o histórico de Bolsonaro que manifesta um programa liberal quase tão distante  quanto seu adversário., pois ele já deixou claro, por exemplo, que as quatro grandes estatais (Petrobras, Eletrobrás, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal) não serão privatizados. Também já se manifestou contrário a mudanças no caso dos militares reformados. Enfim, torço para que seja uma política mais liberal, mas acho que são baixas as chances de que venha a se materializar”, opina Schwartsman. 


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