A curtida de Mr. Rosenstein

Como conceber o Facebook sem os “likes”? As manadas digitais das eleições que o digam

Por Fernando Dourado Filho, de Baden Baden (Alemanha)

Facebook

No trem que liga Baden Baden a Kehl, vendo lá fora a paisagem que pouco a pouco perde o verde e ganha muitos tons de ocre, uma informação de jornal me deixa perplexo. Diz ele que um espanhol médio consulta o telefone celular aproximadamente 150 vezes num único dia. Ora, isso equivale à alucinante marca de uma vez a cada dez minutos, aqui incluídas as horas de sono, chuveiro e direção, seja ela automotiva ou de bicicleta. Os distúrbios de atenção que dai decorrem são incontáveis e muita gente cogita de abraçar total jejum digital. As empresas até que procuram ajudar e há bloqueio programado de chamadas profissionais depois de certa hora. Mas e o WhatsApp? Nessa encruzilhada de tempos, um homem parece já ter feito sua opção. Sim, Mr. Rosenstein está desconectado das redes sociais. Para quem não sabe, é possível que sua invenção tenha colocado a mais reluzente das cerejas no imenso bolo do Facebook. 

Isso porque foi ele mesmo quem bolou o comando "like", "curtir", "me gusta" na rede. O segredo das curtidas é que elas produzem satisfação sem maior compromisso ou explicação. Daí que geram explicável dependência psicológica, o que abre avenidas para a manipulação de corações e mentes. Lendo mais sobre os sentimentos do bom Justin Rosenstein, tive a impressão de estar diante da equipe do Enola Gay, a mesma que largou uma bomba atômica sobre Hiroshima, nos estertores da Segunda Guerra. Consciente dos tremendos danos causados pelo seu invento, Justin perpetra uma espécie de autopunição e de flagelo ao abandonar a vida em rede. Se espera que o exemplo frutifique mundo afora, junto a públicos de todas as idades, o gesto é por si só representativo e jamais tardio. O mesmo caminho está tomando o renomado historiador britânico Niall Ferguson, um ex-aficionado. O que mais me intriga, porém, é mesmo o mecanismo do "like". 

Eu ainda estava a anos-luz de me interessar por qualquer rede social, quando uma amiga, tendo postado uma foto do parque do Ibirapuera no Facebook, mostrou-me a tela do telefone no restaurante e começou a enumerar as pessoas que tinham gostado da visão de um domingo ensolarado, tomada do alto da pinguela sobre o lago. O que antes demandaria um telefonema de elogios e talvez até uma troca de impressões, agora se fazia por código minimalista. Mal sabíamos todos que um dia aquele pulsar indolor passaria a regular a autoestima de muitos e que criaria um verdadeiro escambo de "likes" entre grupos sociais assemelhados e afins. Se a invenção propiciou alegrias imediatas a Justin Rosenstein e seus clientes, estava iniciado o processo que funcionaria para o meio digital como a cocaína estava para as festas dos anos 1980. Sem ela, não havia festa. Como conceber o Facebook sem curtidas? As manadas digitais das eleições que o digam. 


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